Um fotógrafo às terças

Rebecca Litchfield. Nasceu em 1982 em Sutton, Reino Unido. Começou a fotografar em 2006 e a ruína – que ela própria define como a sua paixão fotográfica – surgiu em 2012 como tema recorrente. Recente, portanto, mas já com uma obra assinalável neste domínio. A sua fotografia não é – contrariamente à maioria dos fotógrafos que irão encontrar nesta rubrica – tecnicamente “aventureira” (embora seja fisicamente aventureira, já que os locais fotografados não são de acesso trivial, tendo sido já sido detida pela polícia). Rebecca utiliza uma Mamiya de médio formato (645DF) com back digital (Mamiya Leaf Credo 80) e tira partido das imensas capacidades (gama dinâmica e riqueza cromática) do formato. Não é uma fotografia com um cunho pessoal forte, mas acho que, face ao tema que ela escolheu como objecto fotográfico, essa neutralidade é bem-vinda. Já lá retornarei.

A “beleza” é tradicional e inerentemente associada ao “bem”, mas o confronto com a ruína – que tem reminiscências com o nosso próprio e inevitável decaimento e morte – leva-nos a revisitar esse conceito. A inquietação é reforçada por sermos confrontados com ambientes cuja ruína tem como obreiro o abandono, o tempo e os elementos, invocando a inexorabilidade incómoda mas incontornável: não apenas somos finitos, como a nossa pegada, sob a forma do que construímos, é fugaz. Gente: é totalmente ausente destas imagens. A sua presença passada pode ser inferida pelas marcas que aí persistem. Mas que gente foi essa? Que rostos, que sonhos, intrigas, façanhas e cobardias povoaram estes espaços, para sempre deles afastados? Desses espaços resta hoje o vazio e o silêncio, demonstrando que cenários distópicos e pós-apocalípticos não são um exclusivo da ficção literária e cinematográfica. Disso mesmo é um exemplo eloquente o seu trabalho Soviet Ghosts (que considero a sua obra mais notável, sendo dela retiradas metade das imagens que acompanham este texto). Soviet Ghosts transporta-nos até à imensa escala dos escombros – reais e metafóricos – da ex-União Soviética e dos seus estados satélite.

Registar estes espaços e o processo de decaimento e ruina é, assim, um testemunho e uma memória inestimável – na verdade, a única possível. São memórias “adquiridas” e não memórias na primeira pessoa. Pierre Nora refere-se a estas memórias adquiridas como “não-autênticas” e, como tal, pouco valiosas. Será um documentário dedicado a Auschwitz/Birkenau inútil? O testemunho de um soldado que desembarcou na Normandia? Uma fotografia da cidade fantasma de Pripyat (na sequência do desastre nuclear de Chernobyl)? Escrevendo a propósito da capacidade que o cinema tem de criar ligações emocionais com eventos que não testemunhámos, Alison Landsberg criou o termo “memória prostética” que considera um meio de criar uma ligação com o passado e impedir o seu esquecimento. Sim, Pierre Nora, tem mais razão do que eu gostaria de reconhecer, mas hoje celebro as memórias que o trabalho de Rebecca Litchfield invocam e que, “prostéticas”, “não-autênticas” ou que quer que lhe chamemos, são, ainda assim, memórias.

Concluo, retornando à neutralidade. Nem sempre a fotografia de Rebecca é neutra (quando o não é, acho-a menos interessante e conseguida). Mas a que celebro hoje, sim, é documental, neutra (ou tanto quanto a fotografia consegue ser). É a forma mais digna e efectiva de preservar essa memória. Documentando-a, precisamente.

Site: Rebecca Litchfield

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Todas as imagens de Rebecca Litchfield


Esta rubrica não é um guia dos notáveis da fotografia. Menos ainda, um espaço de “crítica” fotográfica (para a qual não estou qualificado nem tenho vocação). É um espaço que não aspira à neutralidade, reflectindo antes um gosto pessoal. Falarei dos fotógrafos cuja obra me toca, desafia e me faz reagir – não apenas visualmente, mas visceralmente. Precisamente por não ser um espaço de crítica, não haverá lugar para fotógrafos cujo trabalho não seja do meu agrado.

João Jarego


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por data de publicação e nome de autor.

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