UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS

“I am forever chasing light. Light turns the ordinary into the magical.”

Trent Parke. É australiano, nascido em 1971. Num mundo saturado de imagens e no qual é fácil ceder-se ao cinismo de se achar que já se viu tudo, a fotografia de Trent Parke obriga-nos a parar o olhar. O “chiaroscuro” das suas imagens e sempre a magia onírica da transitoriedade da luz fixada para sempre num fotograma.

Trent Parke respira fotografia. Quando não está a fotografar está a pensar a fotografia (“Photography is na extension of all the toughts that I have…”). Esta começou por ser um hobby, tornado mais sério quando começou a colaborar com alguns jornais locais. Mas era, em primeiro lugar, jogador de cricket. Em 1992 surgiu uma oferta de trabalho no “The Daily Telegraph” (o jornal de maior circulação em Sydney). Aceitou-a. Esta circunstância levou-o a fazer escolhas:

“When I was offered a job on The Daily Telegraph and made the move to Sydney I thought I would still be able to train and play on weekends. I realised after my first week at work that my sporting career was over – the paper demanded so much. And if I can’t go 100 per cent at something, it’s over. I need to live what I do from the moment I get up to the moment I fall asleep (and then to dream about it some more). I didn’t play sport to be average I played to be the best that I could be. It’s not about winning or losing, it’s about making sure you are giving it your best shot with the abilities you have been granted…”

Em 1994 passaria a trabalhar no “Australian”, o único jornal diário de circulação nacional. Fotografou de tudo um pouco, mas viria a concentrar-se no desporto. Desta experiência retiraria a noção da transitoriedade fugaz do momento decisivo:

“I started bringing back pictures of players taking catches above the ground and shots the editors had never had before. You see I knew the game. In sports photography, if you wait until you see something happen, then, by the time you take your shot, the moment has passed. You’ve got to be watching things as they are building in front of you so that you get into position ahead of time. Ten years working as a sports photographer really gave me that extra edge when I was shooting on the streets because I could sense all the elements of a picture while they were still forming around me.”

1999 é o ano em que dá um “salto de fé”. Após vários anos no “Australian”, um novo editor da secção de desporto, conduziu o que Trent Parke considerou a “tabloidização” de um jornal que sempre se tinha destacado pela qualidade da sua fotografia. O seu inconformismo fotográfico resultou numa luta diária e desgastante face à resistência em ver publicadas as suas melhores fotografias. Fez as malas e saiu. Estabeleceu-se como fotógrafo independente e durante uns tempos, segundo o próprio, foi sustentado pela sua mulher, Narelle.

É dessa decisão, na viragem do milénio, que resultaria a construção de uma das mais fascinantes obras fotográficas de sempre.

Trent Parke trabalha incansavelmente e é um permanente insatisfeito. Acerca da insatisfação:

“There’s definitely that point where you know you’ve got something special, but it’s when [you’re doing something such as] using the camera with movement or where you take a chance on something. You think, “that’s a great picture, but how do I make an even greater picture?” Often it’ll be something that I’ve been trying for maybe weeks before, that I’ll be working up to in technique, that might all of a sudden come to fruition in that particular picture. But I’ll push something, and push something and push something, until I get it.“

A sua ética estoica de trabalho é expressa eloquentemente pela história por trás da primeira imagem da pequena selecção apresentada abaixo. Gastou 100 rolos (3600 negativos) na busca da imagem que procurava. Sendo que o que procura é o “acidente”, o “erro”, a “surpresa” (talvez os motivos com mais peso na sua opção por utilizar sempre filme: o resultado só é conhecido no recato do laboratório). É do “acidente” que resulta a imagem excepcional que se destaca entre todas as outras (“I love mistakes …”, confessa). Nas suas palavras:

“I went each evening, for about 15 minutes, when the light came in between two buildings. It happens only at a certain time of the year: you’ve just got that little window of opportunity. I was relying so much on chance – on the number of people coming out of the offices, on the sun being in the right spot, and on a bus coming along at the right time to get that long, blurred streak of movement. If I didn’t get the picture, then I was back again the next day. I stood there probably three or four times a week for about a month. I used an old Nikon press camera that you could pull the top off and look straight down into, because I was shooting from a tiny tripod that was only about 8cm high. I had tried to lie on the ground, but people wouldn’t stand anywhere near me. I finally got this picture after about three or four attempts. I shot a hundred rolls of film, but once I’d got that image I just couldn’t get anywhere near it again. That’s always a good sign: you know you’ve got something special.”

Foi com o preto e branco que Trent Parke se afirmou. Mas, recentemente e em mais uma demonstração da sua procura constante, tem-se focado na cor. Eis o que ele diz acerca da cor versus preto e branco:

“With black and white, or colour, I have to be shooting one or the other and just pushing and working and working and trying to get it to another level. When you shoot colour, you’ve got to think colour. You’re thinking great colours as well as great moments, getting that all to come together in one frame is awfully hard to do.”

A selecção de imagens apresentadas assenta sobre duas das suas séries mais antigas, “Dream/Life” e “Minutes to Midnight“. Fica de fora a sua obra a cores (algumas imagens aqui). Assim como ficam de fora outras séries mais recentes (o que inclui a absolutamente fascinante “The Camera is God”).

Site: Página Agência Magnum.

The Black Rose

Minutes to Midnight

Entrevista

Australia. Sydney. Martin Place, city centre. 2002
Australia. Sydney. Martin Place, city centre. 2002

Trent_Parke_02 Trent_Parke_03

Image from the series Dream/Life. Sydney. A man dashes across traffic on eddy avenue.
Image from the series Dream/Life. Sydney.
A man dashes across traffic on eddy avenue.
Image from the series Dream/Life. Sydney. Standing in front of the Cahil expressway, young girl has her picture taken beside a busker coated in silver at Circular Quay.
Image from the series Dream/Life. Sydney.
Standing in front of the Cahil expressway, young girl has her picture taken beside a busker coated in silver at Circular Quay.

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Image from the series Dream/Life. Sydney. Summer rain . A man stands huddled under awnings on the corner of George & Market st . His tie thrown over his shoulder after running throung a Sydney thunderstorm.
Image from the series Dream/Life. Sydney.
Summer rain . A man stands huddled under awnings on the corner of George & Market st . His tie thrown over his shoulder after running throung a Sydney thunderstorm.
Australia. Sydney. George st, city centre. 2002
Australia. Sydney. George st, city centre. 2002

Trent_Parke_09 Trent_Parke_10 Trent_Parke_11

Image from the series Dream/Life. Sydney. A building reflects the sun during and early morning storm over the cityscape
Image from the series Dream/Life. Sydney.
A building reflects the sun during and early morning storm over the cityscape

Todas as imagens de Trent Parke


Esta rubrica não é um guia dos notáveis da fotografia. Menos ainda, um espaço de “crítica” fotográfica (para a qual não estou qualificado nem tenho vocação). É um espaço que não aspira à neutralidade, reflectindo antes um gosto pessoal. Falarei dos fotógrafos cuja obra me toca, desafia e me faz reagir – não apenas visualmente, mas visceralmente. Precisamente por não ser um espaço de crítica, não haverá lugar para fotógrafos cujo trabalho não seja do meu agrado.

João Jarego


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por data de publicação e nome de autor.

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