UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS

Darcy Padilla. Nascida nos EUA em 1965, faz fotojornalismo e fotografia documental. Trabalhou em dois dos mais importantes jornais americanos: “The New York Times” e “The Washington Post”, antes de se estabelecer como freelancer.

Desde então desenvolveu projectos em Cuba e no Haiti, muito embora a maioria deles se foque no seu país – exemplos disso são o seu trabalho sobre a SIDA em prisões, a reserva índia de Pine Ridge ou sobre a nova febre do petróleo nos EUA (“Drill Baby Drill”).

O seu projecto mais aclamado dá pelo nome de “Family Love”, que surgiu como um desenvolvimento do “The Julie Project”: um projecto de longa duração que seguiu Julie Baird desde 1993 (tinha, então, 18 anos) até 2010 (ano da sua morte) e, posteriormente, até 2014, acompanhando a história da sua família (ou o pouco que dela sobrou).

A história de duas décadas, através da qual Darcy Padilla nos transporta, é dilacerante. Entre as primeiras memórias de infância de Julie Baird, encontramos episódios de embriaguez com a mãe e de abuso sexual pelo padrasto. Aos 14 anos foge de casa. Aos 15 é toxicodependente. Tem a sua primeira filha – Rachel – aos 18 anos. O pai da criança, Jack, infecta-a com HIV. Deixa-o em 1994, fugindo aos maus-tratos. Anda à deriva. Em 1996 nasce o seu segundo filho – Tommy. O pai da criança abandona-os. É apoiada pelo Salvation Army. Junta-se a Paul, que viria a ser condenado a prisão por maus tratos a Tommy. Perde a custódia dos seus dois filhos. Entra num programa de reabilitação na esperança de reaver a custódia dos filhos. Aí conhece Jason, também seropositivo (também ele com uma juventude desfeita e tendo-se prostituído para sobreviver após abandonar a família adoptiva). Com ele Julie tem três filhos em três anos. Viria a perder a custódia de todos os três. Julie e Jason viriam a ser presos por 9 meses, após uma tentativa de rapto de Jordan (um dos seus filhos) no hospital onde este nasceu, de modo a evitar que não fosse dado para adopção.

Em 2005, Darcy Padilla tomou conhecimento de alguém que andava à procura de Julie. Era o seu pai biológico, que vivia no Alasca. Promove o encontro e Julie e Jason mudam-se para lá. Aí viverão um breve período de harmonia até à morte do pai um ano mais tarde. Permaneceram no Alasca e, em 2008, é mãe pela sexta vez. Nasce a sua filha Elyssa. A saúde de Julie deteriora-se e acaba por falecer a 27 de Setembro de 2010, vítima de complicações decorrentes da SIDA. Tinha 36 anos.

Posteriormente, Darcy Padilla continuou a acompanhar o percurso de Elyssa e do pai, Jason (entretanto condenado a 17 anos de prisão por alegado abuso sexual de um menor).

Toda esta narrativa, a ser ficção, poderia ser considerada “miserabilista”. Lamechas. A “história da desgraçadinha”. Não é, contudo, de ficção que trata. As “Julies” estão por toda a parte e cruzam-se connosco na rua. Quase invisivelmente.

Ética na fotografia. Há uma linha ténue que delimita o que é legítimo fotografar. O projecto fotográfico existiu, segundo Padilla, graças ao consentimento e vontade de Julie. Porém há questões que não consigo deixar de colocar. Foi Padilla uma simples espectadora? Ajudou-a tanto quanto poderia ter feito? Estaria ao seu alcance resgatá-la deste vórtice de pobreza e negligência? Não tenho como responder. Quanto vale uma fotografia? Padilla conta que, ao encontrar Julie quando esta estava em fuga com Jason e o seu bebé, a chorar, não a fotografou. Abraçou-a. Há preços que nenhuma fotografia pode justificar.

Não vou julgar Padilla, do mesmo modo que não julgo Julie. Na verdade, Darcy Padilla mostra-nos Julie para lá de todos os preconceitos e ideias feitas que possam persistir relativamente a quem vive nas margens e é “drogado”, “com SIDA” e “dá os filhos para adopção”. Sim. Porque a lei seca das relações sociais é de que nos damos com pessoas semelhantes a nós. Não são muito mais ricos. Ou muito mais pobres. Ou têm visões do mundo e anseios radicalmente diferentes dos nossos. Isto significa que vidas como a de Julie não fazem parte do meu “mundo” e, admito, não farão parte do “mundo” do leitor. Um mundo em que não sabemos o que é ser-se mãe de seis filhos e ficar apenas com a mais nova, já no ocaso da sua curta vida. Padilla abre-nos os olhos. Dá-nos uma visão íntima e dolorosa de uma vida desfeita pela pobreza, abuso, doença, múltiplas relações, sem um local a que pudesse chamar lar. O seu trabalho contribui para nos tornar mais despertos e empáticos para com o sofrimento alheio. Ora vejam a montagem em vídeo que Darcy Padilla fez do seu trabalho “Family Love”. É possível deixar de sentir um nó na garganta ou manter os olhos enxutos?

21 anos. Não há muitos projectos fotográficos com esta duração. Menos ainda acompanhando uma vida. E menos ainda numa história com esta densidade.

Este projecto foi distinguido pela Word Press Photo em 2015, na categoria de projectos de longa duração.

Website: Darcy Padilla

Agencia Vu

Family Love (video)

Family Love (livro)

The Julie Project

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Darcy Padilla, no seu primeiro encontro com Julie Baird. Aconteceu no dia 28 de Janeiro de 1993 no lobby do Hotel “Ambassador” em São Francisco. Julie, já seropositiva, tinha então 18 anos e Rachel, a sua primeira filha, 8 dias de vida.
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São Francisco, Califórnia. Julie com o seu filho Tommy nascido em 1996. O pai da criança abandonou-os.
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Em Anchorage, Alasca, Julie abraça o pai que a procurou durante 30 anos. É a mais velha de cinco filhos de Bill Baird. A mãe de Julie (com 17 anos) fugiu de Bill com a filha depois de uma discussão entre ambos.
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Anchorage, Alasca. Julie em Abril de 2008. Depois da morte repentina do pai, vítima de um ataque cardíaco, Julie sente-se fatigada e deprimida, acabando por ser hospitalizada. “Death, this is the first time I welcome it” diz ela. “I won’t be in pain anymore. Sometimes I wish it would come faster… I can’t fight anymore.”
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Anchorage, Alasca. Mãe pela sexta e última vez. Nascimento de Elyssa em 2008, bebé que Julie não desejava, já que não queria que um filho assistisse à sua morte.
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Jason repreende Elyssa. Julie toma agora 35 comprimidos por dia para combater as infecções decorrentes da SIDA.
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Palmer, Alasca. Julie com Elyssa a seu lado. Do hospital enviaram-na para casa e disseram-lhe que se preparasse para morrer. No dia anterior Elyssa estava distante, hoje não se separa da mãe. Mexe-lhe na cara e pede que acorde.
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Palmer, Alasca. Jason, exausto por cuidar de Julie segura Elyssa.
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Palmer, Alasca. Julie na sua fase terminal, tentando erguer-se.
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Palmer, Alasca. Jason abraça Julie poucos dias antes da sua morte.
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Palmer, Alasca. Jason com Elyssa, pouco antes de deixarem o Alasca rumo a Portland, Oregon, onde os pais adoptivos de Jason Jr (filho de Jason e Julie) vivem.
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Portland, Oregon. Elyssa brinca com o primo.

 

Todas as imagens de Darcy Padilla


Esta rubrica não é um guia dos notáveis da fotografia. Menos ainda, um espaço de “crítica” fotográfica (para a qual não estou qualificado nem tenho vocação). É um espaço que não aspira à neutralidade, reflectindo antes um gosto pessoal. Falarei dos fotógrafos cuja obra me toca, desafia e me faz reagir – não apenas visualmente, mas visceralmente. Precisamente por não ser um espaço de crítica, não haverá lugar para fotógrafos cujo trabalho não seja do meu agrado.

João Jarego


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por data de publicação e nome de autor.

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