UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS

Either you believe that life in all its manifold horrors is basically and essentially good, or you don’t … what I try to say in my work is that ‘I believe in life.”

Roy DeCarava, nascido em 1919. Nova Iorque seria a sua cidade: nela nasceu, viveu e faleceu (em 2009). Roy DeCarava chegou à fotografia de uma forma curiosa: sendo pintor, a aquisição de uma máquina fotográfica surgiu como um meio para registar ideias a serem desenvolvidas na tela. Poucos antes de completar 30 anos, contudo, a fotografia deixou de ser um meio para se tornar um fim: foi sobre este suporte que DeCarava passou a “falar” ao mundo.

A sua obra primeira obra editada foi o notável “The Sweet Flypaper of Life”, um trabalho que contou a participação do poeta Langston Hughes. As fotografias de DeCarava inspiraram as palavras de Hughes, através de um personagem imaginário – Sister Mary Bradley, uma avó afro-americana – que traz até nós vida e os sentimentos da época no Harlem.

Este trabalho, publicado em 1955, foi possível graças a uma bolsa da Fundação Guggenheim (a primeira atribuída pela Fundação a um fotógrafo negro). Nele, DeCarava, utiliza como cenário as ruas de Harlem – o seu bairro – e testemunha a vida da população negra num momento em que a luta pelos direitos civis tomava um novo impulso. No entanto, não é uma fotografia com um cunho marcadamente activista do ponto de vista político. Não “grita”. É, antes, a materialização da sua visão fotográfica, profundamente subtil e poética.

DeCarava tinha um maravilhoso sentido de experimentação com a luz. Trabalhava com a luz ambiente, daí resultando que muitas das suas fotografias são escuras. DeCarava procurava a “infinita gama de tonalidades” (“the infinite range of tonalities”, nas suas próprias palavras) que a fotografia torna possível. Fotografou à noite, em clubes de jazz com iluminação mínima. Porque é que as imagens não deveriam ser escuras? (Não que eu me importe com uma fotografia estar ou não “corretamente exposta”, mas o que é expor “corretamente” quando se fotografa à noite?).

Pouco depois da publicação de “The Sweet Flypaper of Life”, nasce na mente de DeCarava um outro projecto. Seria um compêndio das suas fotografias de músicos de Jazz, acompanhadas por poemas, a chamar-se “The sound I saw”. O título joga astuciosamente com o conceito de cinestesia, o fenómeno de experimentar um dos nossos sentidos através de outro, neste caso, a visão através da audição e vice-versa. Seriam precisas décadas para que DeCarava conseguisse encontrar um editor para este seu (extraordinário) trabalho. A longa espera só terminaria em 2001 quando, finalmente, foi publicado. Desta recolha de imagens efectuada nas décadas de 50 e 60, emana uma essência languida, melancólica e obscura, própria dos ritmos da música que retrata. Fotografias onde apenas se ilumina um gesto, um olhar, umas mãos deslizando sobre o teclado. Com uma extraordinária sensibilidade, utilizou a escuridão de uma forma tão efetiva e “extrema” como poucos fotógrafos o fizeram – ainda menos quando recuamos ao seu tempo. Não resisto ao paralelo com Caravaggio: pela semelhança do nome e pela mestria na utilização do “chiaroscuro” (salvaguardadas as devidas diferenças de linguagem, decorrentes de épocas – três séculos e meio separam os seus nascimentos – e contextos distintos).

Como todos os fotógrafos que têm desfilado por esta rubrica (excepção feita à Rebecca Litchefield, mas num contexto muito particular), DeCarava utilizava o meio fotográfico com total liberdade criativa. Repetirei até à exaustão que o mundo não precisa de mais uma imagem tecnicamente perfeita. Todos os dias são tiradas milhares (?) de imagens “perfeitas”. O mundo está saturado delas. Experimentem. Errem. Falhem. Mas façam-no sendo vós próprios. Pegando nas palavras do Samuel Becket: Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.

Todas as imagens publicadas fazem parte das obras “The Sweet Flypaper of Life” e “The sound I saw”.

Vídeo: Roy DeCarava Tribute

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Todas as imagens de Roy DeCarava


Esta rubrica não é um guia dos notáveis da fotografia. Menos ainda, um espaço de “crítica” fotográfica (para a qual não estou qualificado nem tenho vocação). É um espaço que não aspira à neutralidade, reflectindo antes um gosto pessoal. Falarei dos fotógrafos cuja obra me toca, desafia e me faz reagir – não apenas visualmente, mas visceralmente. Precisamente por não ser um espaço de crítica, não haverá lugar para fotógrafos cujo trabalho não seja do meu agrado.

João Jarego


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por data de publicação e nome de autor.


 

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