Ralph Eugene Meatyard, fotógrafo americano nascido em 1925 em Normal, Illinois. Faleceu aos 46 em Lexington, Kentucky, vítima de cancro (as fontes não são concordantes, referindo uma outra que a sua morte decorreu de complicações cardíacas congénitas).
Durante toda a sua vida adulta trabalhou numa óptica 5 dias e meio por semana, dedicando-se ao fabrico de lentes para óculos. A fotografia era um hobby. Considerava-se um “amador dedicado”. Eis um pai de família, com um emprego a tempo inteiro, que viveu uma vida curta e sempre afastada dos principais centros culturais do país (todas as suas fotografias foram tiradas na zona de Lexington para onde se mudou em 1950 e aí viveu até à sua morte em 1972). E, contudo, nos seus tempos livres, experimentou, ousou. Criou. E de que forma …
Segundo Guy Davenport, que conheceu pessoalmente Ralph Eugene Meatyard, este adquiriu a sua primeira câmara aos 25 anos e com a finalidade de fotografar o seu primeiro filho. Em 1954, Meatyard junta-se ao clube de fotografia local, o “Lexington Camera Club”. Aí encontra em Cranston Ritchie e Van Deren Coke, outros membros do clube, os seus principais mentores e fontes de inspiração. Meatyard, porém trilha o seu próprio caminho e fá-lo rejeitando convenções e ortodoxias. Improvisa. Trabalha com exposições múltiplas, exposições arrastadas e outros métodos que promovem a abstracção fotográfica.
O seu trabalho fotográfico era descontínuo, pontuado por surtos quase frenéticos, ficando os filmes por revelar durante bastante tempo, ao que se sucedia um trabalho febril dedicado à sua revelação. O facto de a fotografia ser um hobby que se alimentava do seu tempo livre ajuda a perceber este ritmo irregular.
Fotografou e revelou milhares de imagens. O seu trabalho tem vindo a ser descoberto ao longo do tempo. A Phaidon dedicou-lhe uma edição em 2002. O escritor e crítico Guy Davenport publica, em 2004, o título Ralph Eugene Meatyard. Neste, o trabalho do fotógrafo é analisado com maior abrangência e profundidade.
Meatyard foi um leitor voraz (segundo se diz, lia mesmo enquanto conduzia). A paixão pela leitura aproximou-o de escritores locais, incluindo, entre outros o já nosso “conhecido” Guy Davenport. Num registo menos “secular”, é muito curioso notar que Meatyard estabeleceu uma ligação (e correspondência escrita) com o monge Thomas Merton, figura destacadíssima da espiritualidade católica, que vivia num mosteiro de monges trapistas situado no mesmo estado onde Meatyard residia. Ambos partilhavam um ardente interesse pela literatura, filosofia e espiritualidade ocidental e oriental. Merton surge em algumas das experimentações fotográficas de Meatyard e, após a morte acidental de Merton na Tailândia (em 1968) escreveria a sua eulogia fúnebre, publicada no jornal Kentucky Kernel.
O último dos seus projectos seria o designado The Family Album of Lucybelle Crater. Este consiste numa série de retratos da sua esposa, filhos e outros elementos da sua família (além de amigos). Foi publicado postumamente em 1974. O título do trabalho foi inspirado no conto de Flannery O’Connor (nascida no mesmo ano de Meatyard) intitulado “The Life You Save May Be Your Own”. Neste, uma mulher apresenta-se a si mesma e à sua filha surda-muda como “Lucynell Crater.” Nesta série todos os fotografados surgem com uma máscara e são identificados como sendo “Lucynell Crater.”
Meatyard adquiriu a sua primeira câmara para fotografar o seu primogénito. Não há nada de mais prosaico que fotografar a família. Com o seu último trabalho, volta a fotografar a sua família. De alguma forma é um regresso às origens, trabalhando dentro da tradição mais popular da fotografia. Fa-lo, porém, pervertendo-a e, nesse sentido, pode ser considerado um trabalho fortemente conceptual. As imagens fazem-se acompanhar de legendas tão auto-reflexivas e crípticas como “Lucybelle Crater and her editorial friend’s symbolic son”.
Ralph Eugene Meatyard. Hoje celebramos a sua pulsão criadora. Tão forte que se revelou ao menor estímulo e brotou, escorrendo livre de baias e formatações. É-se artista quando se consegue lançar um olhar novo sobre o mundo. Meatyard foi um deles, sem que nunca tivesse sido “treinado” para sê-lo.
Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por data de publicação e nome de autor.











