Um fotógrafo às terças – H-art Collective

 

H-art Collective. Pela primeira vez trago-vos um colectivo: são quatro fotógrafos Turcos (três dos quais residentes em Istambul). Pela primeira vez também, trago-vos fotografia captada com dispositivos móveis. O colectivo H-art actua na fotografia de rua captada precisamente com dispositivos móveis (falamos de smartphones).

Pela primeira vez na história, a maioria das fotografias não é captada através de dispositivos dedicados. Os smartphones tornaram-se o hub tecnológico mais importante na vida de centenas de milhões de pessoas (em 2014 foram vendidos 1244 milhões destes dispositivos em todo o mundo). Importantes por serem uma espécie de canivete suiço tecnológico: sim, fazem chamadas, mas congregam GPS e respectiva navegação, acesso à internet (de forma explícita, via browser, e de forma menos óbvia, através das “apps”), interacção com redes sociais, uma miríade de “apps” … e uma câmara fotográfica. A transposição da fotografia para os smartphones criou novas tendências e hábitos. Tornou-a ainda mais ubíqua. E, numa cultura que valoriza cada vez mais o imediatismo, a possibilidade de fotografar em qualquer circunstância (o smarphone, contrariamente a uma câmara – mesmo se compacta – acompanha-nos sempre), de a editar imediatamente e publicar a partir de qualquer lugar são atributos irresistíveis. Pelo meio, os fabricantes de material fotográfico têm um ajustamento doloroso a fazer: na primeira metade desta década a venda de câmaras fotográficas caiu dois terços, sendo que foram as máquinas compactas a acomodar o grosso dessa queda.

Mas o que é que isto tem a ver com fotografia? Isto não é suposto ser uma rubrica que trata de fotografia “séria”? Bom: tem tudo a ver com fotografia, ou não fosse esse o meio mais usado nos nossos dias para a captação de imagens. Quanto à “seriedade”, o dispositivo é um instrumento. Recomendo a leitura do texto “Points of Sufficiency” acerca da “Gear Lust”. Nos melhores smartphones já é possível encontrar sensores com uma qualidade “aceitável”, sendo que o termo aceitável depende do que se pretende fazer com a fotografia. A fotografia não vive apenas da resolução, da perfeição da exposição ou da gama dinâmica da imagem (caso contrário teríamos que limpar a maioria das imagens que vão ficando na história da fotografia). A questão essencial é, então, a de se os smartphones já atingiram um ponto em que são um meio válido de expressão de uma visão fotográfica. Um ponto em que permitem a criação de “objectos fotográficos” e não apenas uma função utilitária mediocremente exercida à falta de uma “máquina” decente. Pergunta que, se acaso respondesse negativamente, não estaria a escrever estas linhas.

O surgimento do colectivo H-art tem como pano de fundo a ascensão da fotografia móvel enquanto movimento global. Este movimento é suportado por um volume de produção imenso e tem vindo a estabelecer uma estética própria. O reconhecimento da fotografia móvel enquanto uma via “respeitável” ainda está por chegar. Na minha opinião isso decorre da sua massificação (daí resultando, indiscutivelmente, um fluxo imenso de imagens sofríveis), de não exigir qualquer competência técnica (são a “point and shoot” por excelência, o que significa que mesmo os conhecimento mais rudimentares de técnica fotográfica são dispensáveis … o que é pouco “digno” aos olhos de muitos) e a natural resistência à mudança (basta procurarem o que se escreveu acerca da introdução do filme de 35 mm). Preconceitos à parte, será difícil negar que abre a porta a novos experimentalismos.

Na fotografia móvel trabalha-se com as limitações técnicas do meio. Limitações que facilmente se esquecem quando se fotografa com uma “full-frame” digital moderna, mas que sempre estiveram presentes ao longo da história da fotografia. Hoje não é raro encontrar quem, fotografando muito ocasionalmente, tenha a “absoluta necessidade” de ter uma “full-frame”. A fotografia móvel é a afirmação de que podemos e devemos, sem qualquer drama, utilizar o que temos à mão. A afirmação de que a limitação pode ser um estímulo. E que o equipamento, sendo importante, está sobrevalorizado. O olhar é tudo.

O H-art Collective é composto por Ilknur Can, Emrullah Eyvallah, Sevil Alkan e Hakan Çınar.

Emrullah Eyvallah_01 Emrullah Eyvallah_02 Emrullah Eyvallah_03 Emrullah Eyvallah_04 Hakan Çınar_01 Hakan Çınar_02 Hakan Çınar_03 Ilknur Can_01 Ilknur Can_02 Ilknur Can_03 SevilAlkan_01 SevilAlkan_02


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por data de publicação e nome de autor.

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