UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS – Kikuji Kawada

Kikuji Kawada nasceu no primeiro dia do ano de 1933. Depois de Masahisa Fukase, nascido no ano seguinte e já aqui destacado há algumas semanas, é o segundo fotógrafo da “geração perdida” de japoneses nascidos antes do início da segunda grande guerra e que cresceram numa nação humilhada, derrotada e devastada. Não será o último. A dita “geração perdida”, decididamente, não o foi do ponto de vista artístico. Kawada, em 1959, fundou o colectivo VIVO, juntamente com nomes como Akira Sato, Eikoh Hosoe, Ikko Narahara, Akira Tanno e Shomei Tomatsu (… geração perdida?).

Há 50 anos, no dia 6 de Agosto de 1965, foi lançado um dos mais extraordinários objectos fotográficos de sempre. Tinha por título “Chizu” (O Mapa). Nesse dia passavam 20 anos desde a detonação da bomba atómica sobre Hiroshima.

O que faz de “Chizu” um livro único não é o tema que ele cobre (palavra que não será a mais adequada para um livro como este). A destruição de Hiroshima foi, entre outros, fotografada por Ken Domon ou Shomei Tomatso. O que distingue “Chizu” é a forma como lida com o tema e é isso que o tem feito tantos referirem-se a ele nas últimas décadas como o melhor ensaio fotográfico de sempre. Eu sou mais prudente quanto aos “absolutos”, mas sou incapaz de esconder o sentimento esmagador de transcendência que esta obra transmite.

Se pensarmos que “Chizu” significa “Mapa”, isso é algo que não encontramos nesta obra num sentido literal. Num sentido mais metafórico, porém, estão lá. Não um mas muitos. Estes mapas são imagens intrincadamente abstratas das paredes torturadas da Cúpula Genbaku (actualmente o Memorial da Paz de Hiroshima). Numa composição engenhosa na qual as imagens se desdobram, tornando o livro um objecto fotográfico fascinante, estas imagens são alternadas com os despojos da guerra. Sucatas, o espólio deixado por pilotos Kamikaze, ruínas de fortificações, soldados mortos, tampas de garrafa, televisões ou bandeiras rasgadas. Até latas de Coca-Cola. Um exercício catártico do passado recente do seu país. Nos termos do fotógrafo britânico Martin Parr:

«No photobook has been more successful in combining graphic design with complex photographic narrative…[as its] various layers inside [are] peeled away like archaeological strata, the whole process of viewing the book becomes one of uncovering and contemplating the ramifications of recent Japanese history — especially the country’s tangled relationship with the United States… His photographs are a masterly amalgam of abstraction and realism, of the specific and the ineffable, woven into a tapestry that makes the act of reading them a process of re-creation in itself. In the central metaphor of the map, in the idea of the map as a series of interlocking trace marks, Kawada has conjured a brilliant simile for the photograph itself: scientific record, memory trace, cultural repository, puzzle and guide…»

Num mundo em que as posições se polarizam e as visões tendem para uma simplificação maniqueísta, é fácil esquecer que a realidade é sempre mais complexa que uma narrativa empacotada. “Chizu” não nos conduz por um caminho seguro ou por uma rota linear. O “mapa” que traça é sinuoso, como os objectos e imagens que se justapõem e desdobram.

A destruição de Hiroshima foi um crime inominável – mas o que dizer do comportamento do Japão imperial durante a segunda grande guerra? “Chizu” não procura fazer um encontro de contas do mal. Prefere conduzir-nos a uma introspecção acerca do mal e fá-lo em detrimento de uma tomada de partido fácil. Aqui está um livro que no híper-contraste das suas imagens a preto e branco (e praticamente sem gradação entre eles) nos fala dos tons de cinzento da existência e da natureza humana. Não simplifica nem dá respostas. Questiona. Agita(-nos) internamente. Mas não grita.

O objecto é tão notável que as imagens em suporte digital nunca lhe farão justiça. Por isso mesmo vos convido a assistirem a um vídeo por Jörg M. Colberg, no qual este apresenta o livro. Um “reprint” pode ser adquirido aqui (aproximadamente 400 Euros).

A estética de Kawada evoluiu em anos subsequentes para um estilo mais colorido e diverso. Nas suas próprias palavras (tradução inglesa):

«Within the rubble of the metropolis, negative and positive images are scattered about. To search for the secret of a hidden existence, one must use the remaining photographs as clues. The shadow of a photograph declares. The most important thing for me was to stand on the site. I witnessed Chernobyl and also the suicidal blazes in Tibet. The ultimate portrait was sublime for all. When beginning to search for the hidden vision from a photograph, one becomes intoxicated with the magic of the image, and you forget that the original power of the euphoria weakens like a legal narcotic. The enigma of a shadow changing shape. The negative and positive images are the lifeline meant to descend into a deep ocean of singular mystery. Words fall together with the marine snow. Images appear like a glass-like prawn. Trying to search for shining stars from phenomena. Before the stars fall, attempting to catch them together with a shadow. Electronic montages are a way to discover several random chances. Violence and crime, or when a dictator transforms his face, the negative and positive images whisper to us. A blurred photo and a fuzzy photo too, they inform us about the enigmatic fringes»

Por último, uma referência ao seu trabalho “The Last Cosmology” que compila fenómenos astronómicos fotografados nos céus de Tóquio ao longo de 30 anos.

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Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor.


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