China Hoje, dia #1, Macau

Uma Viagem de Expressão Fotográfica

Nos últimos 30 dias publicámos a “China do Dia“, uma viagem visual pela lente de 30 fotógrafos que se debruçaram sobre o grande país a Oriente. Após esse trajecto pelo olhar de outros que nos precederam, publicamos agora a “China Hoje”. Durante 15 dias daremos espaço a uma imagem da China, que nos marca directamente toda uma viagem. É a nossa visão pessoal, um diário livre de viagem por terras asiáticas, acompanhando o Workshop de Fotografia Documental. As imagens são de Luís Rocha, os apontamentos de Bruno Castro. Para seguir perto ou longe, todos os dias.

Diário de viagem documental construído na China em 2015
© Luís Rocha. Ruínas de São Paulo. Macau, 2015.
China Hoje, dia #1, Macau
Quando o país aprofunda a encruzilhada entre uma História apagada e a modernidade do século, Macau reflecte o olhar dos chineses. O território procura uma identidade, com as ruínas presentes nas selfies de milhares e no espaço de imagem de fotógrafos que se afirmam amadores (de quem ama) em cada disparo, como pano de fundo do ruído asiático. O contexto da primeira paragem é de uma China que a geografia encontrou distante e a imagem aproxima todos os dias, colonizada pela pose.


Anúncios

UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS – Francesco Zizola

Francesco Zizola nasceu no ano de 1962 em Roma. Começou por estudar antropologia cultural, mas a fotografia entraria cedo na sua vida (em 1981), estabelecendo-se como fotojornalista em 1986. O seu trabalho é dos mais reconhecidos entre os fotógrafos no activo, contando com múltiplas distinções da World Press Photo.

Antes do reconhecimento ter chagado, Zizola batia – muitas vezes sem sucesso – à porta das redacções. O que ele trazia não eram imagens coloridas de gente bonita e sorridente. Além da ausência de cor, a sua preferência sempre foi por fotografias reflexivas, com uma forte carga simbólica e, muitas vezes, retratando o sofrimento e a morte.

Zizola pratica uma fotografia de proximidade: “A minha vontade não é a de mostrar um objecto de observação, mas a de convidar o espectador a participar do acontecimento“. Recorre com frequência a uma lente de 28 mm e quem fotografa sabe que este tipo de distância focal obriga a que se esteja imerso no ambiente fotografado e é incompatível com a manutenção de distâncias de segurança. Esta proximidade levanta a questão da interferência sobre a realidade fotografada: não acabará por ter influência no contexto da fotografia? Acerca disto, Zizola refere “Procuro sempre sempre a invisibilidade do fotojornalista. Se sinto que condiciono uma reacção dos personagens que fotografo, prefiro parar. Há anos, nos territórios ocupados palestinos, andava pelas ruas com a câmara guardada a observar a vida quotidiana das pessoas num momento de calma. Ao retirar a câmara do bolso, a situação teve um volte-face: as crianças ameaçaram-me com pedras nas mãos e encenaram uma intifada – a revolta dos palestinos contra Israel. Tento corrigir estas situações não publicando fotos de acontecimentos que não são genuínos.”

Zizola já testemunhou a morte de dois dos “fixers” que havia contratado. “Sair (de uma situação) com uma boa foto e sem a vida não faz muito sentido.” Sobre os fixers: “Não há uma única forma de me preparar (para cobrir um cenário de guerra), mas o ideal é ficar perto de pessoas notoriamente experientes e que vivem na região. Em situações de guerra, com dificuldades de acesso, a melhor coisa é ter por perto alguém que conheça bem o terreno, os grupos sociais com quem nos vamos encontrar e os riscos ao longo desse caminho. É preciso escolher bem essas pessoas, que são chamadas de “fixers” – como próprio nome diz, seu papel é “consertar” o que acontecer de errado. Eles geralmente são jornalistas, estudantes de jornalismo ou professores universitários. Quanto mais bem escolhido é o fixer, melhor é o resultado do trabalho, já que ele nos leva a lugares aonde ninguém poderia ir sozinho. Os verdadeiros heróis são eles e, muitas vezes, infelizmente, são eles que perdem a vida.”

Fotografar a morte e o sofrimento: “Tenho muito respeito pelas pessoas e procuro respeitá-las também na imagem, mostrando sua dor e desespero com dignidade. Para mim, só vale a pena fotografar alguém em sofrimento se representa um contexto mais amplo, não apenas a expressão de um acontecimento pontual. (…) Tenho muitas fotos que nunca foram publicadas, só divulgo aquelas que considero necessárias.” E o que torna uma foto “necessária”? “Uma foto só é necessária quando aumenta o conhecimento do espectador sobre um assunto. Para isso, é preciso um grande cuidado na linguagem com que se mostra a dor dos outros. Nas minhas fotografias, tento sempre deixar a vida mais em evidência. Procuro comunicar a morte com o que permanece em vida. Ou seja, captando a dor de quem mais sofre com esta perda.”

Francesco Zizola. Um imenso fotojornalista. Aqui em discurso directo.

Francesco Zizola_01 Francesco Zizola_02 Francesco Zizola_03 Francesco Zizola_04 Francesco Zizola_05 Francesco Zizola_06 Francesco Zizola_07 Francesco Zizola_08 Francesco Zizola_09

Sao Paulo, Brazil. 1994. This boy shot the owner of the car he stole. The police show him an x-ray of the car owner with the bullet wound to the neck. The boy has just been informed that the police have obtained a warrant to arrest him for attempted suicide.
Sao Paulo, Brazil. 1994. This boy shot the owner of the car he stole. The police show him an x-ray of the car owner with the bullet wound to the neck. The boy has just been informed that the police have obtained a warrant to arrest him for attempted suicide.
Salvador de Bahia, Brazil. 1992 A group of street children live inside this demolished building, in the vicinity of the local yacht club.
Salvador de Bahia, Brazil. 1992
A group of street children live inside this demolished building, in the vicinity of the local yacht club.

Francesco Zizola_12


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor.