UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS – Francesco Zizola

Francesco Zizola nasceu no ano de 1962 em Roma. Começou por estudar antropologia cultural, mas a fotografia entraria cedo na sua vida (em 1981), estabelecendo-se como fotojornalista em 1986. O seu trabalho é dos mais reconhecidos entre os fotógrafos no activo, contando com múltiplas distinções da World Press Photo.

Antes do reconhecimento ter chagado, Zizola batia – muitas vezes sem sucesso – à porta das redacções. O que ele trazia não eram imagens coloridas de gente bonita e sorridente. Além da ausência de cor, a sua preferência sempre foi por fotografias reflexivas, com uma forte carga simbólica e, muitas vezes, retratando o sofrimento e a morte.

Zizola pratica uma fotografia de proximidade: “A minha vontade não é a de mostrar um objecto de observação, mas a de convidar o espectador a participar do acontecimento“. Recorre com frequência a uma lente de 28 mm e quem fotografa sabe que este tipo de distância focal obriga a que se esteja imerso no ambiente fotografado e é incompatível com a manutenção de distâncias de segurança. Esta proximidade levanta a questão da interferência sobre a realidade fotografada: não acabará por ter influência no contexto da fotografia? Acerca disto, Zizola refere “Procuro sempre sempre a invisibilidade do fotojornalista. Se sinto que condiciono uma reacção dos personagens que fotografo, prefiro parar. Há anos, nos territórios ocupados palestinos, andava pelas ruas com a câmara guardada a observar a vida quotidiana das pessoas num momento de calma. Ao retirar a câmara do bolso, a situação teve um volte-face: as crianças ameaçaram-me com pedras nas mãos e encenaram uma intifada – a revolta dos palestinos contra Israel. Tento corrigir estas situações não publicando fotos de acontecimentos que não são genuínos.”

Zizola já testemunhou a morte de dois dos “fixers” que havia contratado. “Sair (de uma situação) com uma boa foto e sem a vida não faz muito sentido.” Sobre os fixers: “Não há uma única forma de me preparar (para cobrir um cenário de guerra), mas o ideal é ficar perto de pessoas notoriamente experientes e que vivem na região. Em situações de guerra, com dificuldades de acesso, a melhor coisa é ter por perto alguém que conheça bem o terreno, os grupos sociais com quem nos vamos encontrar e os riscos ao longo desse caminho. É preciso escolher bem essas pessoas, que são chamadas de “fixers” – como próprio nome diz, seu papel é “consertar” o que acontecer de errado. Eles geralmente são jornalistas, estudantes de jornalismo ou professores universitários. Quanto mais bem escolhido é o fixer, melhor é o resultado do trabalho, já que ele nos leva a lugares aonde ninguém poderia ir sozinho. Os verdadeiros heróis são eles e, muitas vezes, infelizmente, são eles que perdem a vida.”

Fotografar a morte e o sofrimento: “Tenho muito respeito pelas pessoas e procuro respeitá-las também na imagem, mostrando sua dor e desespero com dignidade. Para mim, só vale a pena fotografar alguém em sofrimento se representa um contexto mais amplo, não apenas a expressão de um acontecimento pontual. (…) Tenho muitas fotos que nunca foram publicadas, só divulgo aquelas que considero necessárias.” E o que torna uma foto “necessária”? “Uma foto só é necessária quando aumenta o conhecimento do espectador sobre um assunto. Para isso, é preciso um grande cuidado na linguagem com que se mostra a dor dos outros. Nas minhas fotografias, tento sempre deixar a vida mais em evidência. Procuro comunicar a morte com o que permanece em vida. Ou seja, captando a dor de quem mais sofre com esta perda.”

Francesco Zizola. Um imenso fotojornalista. Aqui em discurso directo.

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Sao Paulo, Brazil. 1994. This boy shot the owner of the car he stole. The police show him an x-ray of the car owner with the bullet wound to the neck. The boy has just been informed that the police have obtained a warrant to arrest him for attempted suicide.
Sao Paulo, Brazil. 1994. This boy shot the owner of the car he stole. The police show him an x-ray of the car owner with the bullet wound to the neck. The boy has just been informed that the police have obtained a warrant to arrest him for attempted suicide.
Salvador de Bahia, Brazil. 1992 A group of street children live inside this demolished building, in the vicinity of the local yacht club.
Salvador de Bahia, Brazil. 1992
A group of street children live inside this demolished building, in the vicinity of the local yacht club.

Francesco Zizola_12


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor.


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