UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS – Michael Wesely

Michael Wesely nasceu no ano de 1963 em Munique (Alemanha). Estudou fotografia formalmente na sua cidade-natal (na “Bayerische Staatslehranstalt für Photographie” e na “Akademie der Bildenden Künste”).

Desde a década de 1990 que trabalha no seu método de captura de imagens que utiliza uma câmara pinhole construída por ele próprio e à qual junta filtros especiais de densidade neutra. Segundo Wesely, o processo utilizado permite-lhe captar exposições com durações de até 40 anos. Sim, 40 anos. Estas exposições ultra-longas são uma reinvenção da fotografia e um desafio aos seus limites. A fotografia sempre procurou isolar o momento (generalização perigosa e à qual se conhecem excepções mas, ainda assim, uma generalização válida). O tempo ficou a cargo do cinema. Do vídeo. Ou do híbrido “time-lapse”. E quando lidou com o tempo (as exposições propositadamente longas surgem cedo na história da fotografia), tal sucedeu com elementos que têm uma presença mais efémera no espaço, isto é, cujo movimento é visível ao nosso olhar.

A obra de Wesely é duplamente notável. Desde logo, do ponto de vista técnico. A afinação de um processo tão extremo tê-lo-á obrigado a numerosas iterações com inevitáveis erros. O processo é tão mais penoso quanto a extraordinária duração das exposições exige uma igualmente extraordinária paciência. Mas é particularmente notável do ponto de vista conceptual. E é sobre este que me interessa reflectir um pouco.

A fotografia nasceu como meio de fixação do efémero. A prioridade nos primórdios da fotografia era o de captar imagens cada vez mais instantâneas. Na verdade, essa procura mantém-se nos dias de hoje – ora veja-se o anúncio da Canon de uma câmara com ISO superior a 4.000.000 (o que permite exposições curtas mesmo em condições de absoluta obscuridade).

A fotografia sempre aspirou a ser o contraponto ao tempo desacelerado da pintura. E foi, desde o seu início, um veículo de captação de cenas do quotidiano mas tendo presente a busca do “momento decisivo” em situações de transitoriedade momentânea. Portanto, a fotografia situava-se na fronteira entre o relato jornalístico e a arte. Entre a possibilidade de transcendência estética e o relato factual. Wesely recusa este limites formais e expressivos, incorporando a dimensão temporal de uma forma revolucionária: a escala temporal das suas exposições é de tal forma abrangente que regista as modificações do espaço urbano ao qual as suas câmaras apontam. Plasticamente isto materializa-se na sobreposição de camadas pictóricas com diferentes densidades, como se de um palimpsesto se tratasse (palimpsesto é um manuscrito sob papiro ou pergaminho que foi raspado ou lavado de forma a ser reutilizado, mas nos quais se vislumbra presença de escritos anteriores). Mas um palimpsesto com infinitos graus de opacidade que compõem uma imagem espectral. O espectro do fluir do tempo.

Uma das suas obras emblemáticas, é aquela na qual a transformação da Potsdamer Platz, em Berlim é observado por fotos de duração variável, que às vezes se estendem a mais de dois anos e foram captadas entre 1997 e 2000.

Nem todas imagens produzidas por ele seguem esta linha de exposições com durações extremas, mas todas elas lidam com a condensação da passagem do tempo numa única imagem.

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Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor.


 

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