UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS: Lu Guang

Lu Guang nasceu em 1961 na província de Zhejiang, China. Uma pesquisa sobre o fotógrafo não devolve muita informação além de notas biográficas elementares e a menção aos prémios com os quais foi distinguido.

As melhores pistas para percebermos Lu provêm muito mais do seu próprio trabalho fotográfico do que sobre o que ele é escrito. O seu interesse pela fotografia surgiu pelos 19 anos quando ainda trabalhava numa fábrica de têxteis na sua região natal. Mais tarde frequentou a Academia de Belas Artes da Universidade de Tsinghua, em Pequim, onde estudou fotografia.

Viria a estabelecer-se como freelancer e tem-se destacada por documentar a tragédia ambiental e humana que se vive nos bastidores do “milagre económico” chinês. Esta é uma realidade cuja denúncia, naturalmente, as autoridades do seu país não veem com bons olhos. Este seu activismo é tão mais notável se considerarmos que Lu cresceu sob um regime sombriamente totalitário e, consequentemente, marcado pela ausência de qualquer tradição de fotografia documental.

Lu cresceu numa China ainda profundamente fechada sobre si e marcada pela sombria ortodoxia maoista na qual todos tinham que utilizar uniformes idênticos em azul, verde ou cinza. Qualquer ornamentação era considerada decadente. Desviante. Até às bicicletas utilizadas como meio de transporte diário eram lugubremente pintadas de preto. A individualidade foi proscrita.

Mao faleceu quando Lu tinha quinze anos. Após a sua morte iniciaram-se reformas que abriram o país ao investimento estrangeiro e à iniciativa privada. Para a indústria, a mão-de-obra barata virtualmente ilimitada e sem direitos, a ausência de normas de segurança e de regulação ambiental constituíram uma tentação irresistível. Foi, porém, esta abertura com a sua maior liberdade de movimentação, que permitiu que um operário fabril se deslocasse para estudar fotografia em Pequim (algo impensável nos tempos de Mao). Em 1993 foi isso que Lu fez.

Nalgum momento Lu terá sido exposto ao trabalho de Eugene Smith. Quando vi a fotografia captada por Lu de uma criança de 11 anos com cancro ósseo (na província de Yunnan, numa aldeia onde cerca de 20 pessoas morrem por ano com cancro) esta evocou-me imediatamente a que será, provavelmente, a mais extraordinária “Pieta” da história da fotografia. Eugene Smith documentou os efeitos devastadores da poluição por mercúrio em Minamata, no Japão na década de 1970.

A província de Zhejiang, onde Lu nasceu, chegou a ser conhecida como a terra de peixe e arroz. É uma região predominantemente coberta por colinas e montanhas. Por ter um porto de águas profundas, atraiu indústria e a terra de peixe e arroz é hoje o lar de indústrias eletromecânicas, têxteis, químicas e de materiais de construção. Tornou-se uma das províncias mais ricas da China. É também uma das mais poluídas.

O testemunho da transformação da sua terra natal juntamente com o impacto da descoberta do trabalho de Eugene Smith terão, quiçá, ditado o seu percurso. O que sabemos ao certo é que depois de terminar seus estudos, Lu voltou sua atenção e sua lente para os trabalhadores pobres, sobre as populações marginalizadas da China, e no cenário distópico da poluição industrial. Utilizando o dinheiro que ganhou com os seus trabalhos iniciais na fotografia comercial, começou a percorrer o seu país. Fotografou mineiros, operários, pescadores, pastores, ferroviários, doentes seropositivos. Daria nas vistas internacionalmente pela primeira vez em 2003, graças ao seu trabalho sobre camponeses infectados com HIV na sequência de venderem o seu sangue.

A China retratada por Lu mostra-nos uma realidade escondida. A factura imensa do crescimento chinês paga por aqueles que estão na “base da pirâmide” e que sobrevivem em condições sub-humanas. Um mundo fétido. De doença. Mortes prematuras. Prevalências aflitivas de cancro. Malformações congénitas.

Um homem bom e corajoso.


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Com curadoria de João Jarego.


 

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