UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS: Leila Alaoui

Leila Alaoui, nascida a 10 de julho de 1982, morreu no dia 18 de Janeiro passado. Alaoui estava em Ouagadougou, Burkina Faso, a trabalhar num projecto fotográfico intitulado My Body My Rights para a Aminstia Internacional em prol dos direitos das mulheres. Morreu na sequência dos ferimentos sofridos no atentado da Al-Qaeda no passado dia 15 de Janeiro. Atingida na perna e no peito, a sua situação foi dada como estável depois da cirurgia à qual foi submetida. Chegou a falar com a sua família por telefone. Quando se preparava para ser evacuada, não resistiu a um ataque cardíaco. Tinha 33 anos. O seu funeral, em Marraquexe, contou com a presença massiva de mulheres, numa atitude corajosa de desafio às “normas” locais e honrando a memória de alguém que nunca se deteve perante barreiras,

Leila nasceu em Paris e cresceu Marraquexe. Em adolescente queria tornar-se fotojornalista. Acabaria por ir estudar antropologia e fotografia em Nova Iorque. Três cidades, três países, três continentes. Leila sempre quis transpor fronteiras erguidas entre países, povos, religiões, sexos. Depois de trabalhar em fotografia e cinema, Alaoui voltou a Marrocos em 2008, quando recebeu uma subvenção da União Europeia para trabalhar num projecto fotográfico sobre a emigração. Este seria um tema que a acompanharia desde então. Calcorreou Marrocos. Escolhia uma região e fixava-se uma semana numa aldeia com o seu estúdio móvel “para que as pessoas se acostumassem a mim e se sentissem confortáveis. Esperava por um dia de mercado, quando as pessoas, não só da vila mas também de aldeias vizinhas, aí se deslocavam. Instalava o meu estúdio no meio do mercado, com um fundo preto e dois reflectores. As pessoas apareciam e eu fotografava-as. Tinha comigo uma impressora e oferecia-lhes uma fotografia

Recorreu a técnicas diversas para envolver as pessoas. Por exemplo, “às sextas-feiras às vezes eu iria comprar ingredientes para cozinharmos um grande cuscuz juntos (…). Nenhuma das fotografias foram encenadas. As pessoas posam naturalmente de forma semelhante e eu enquadrava as fotografias do mesmo modo para garantir uma certa unidade visual.” Esta experiência materializou-se na série “Os Marroquinos”.

Alaoui também tinha começado a trabalhar num outro projecto que a apaixonava: fotografar a geração de trabalhadores que emigraram do norte de África para França, onde trabalham, principalmente, na indústria automóvel. Planeava fotografar os filhos destes emigrantes, a segunda geração, entre os quais alguns se têm voltado para o fundamentalismo islâmico. “Quero olhar para esta juventude perdida e que já não tem identidade. (…) A França tem alguma responsabilidade na não integração destes jovens. Se és um jovem muçulmano nos dias de hoje, em França, sem oportunidades e estigmatizado, há pouco que te valha … nem sequer as ideologias esquerdistas ou o Che Guevara. Quando tinha 18 anos, ouvia Bob Marley –com essa idade todos querem ser revolucionários.”

Poucos dias após os atentados de Paris em Novembro passado, diria – à margem da Bienal de Paris – “Tendo em conta o que aconteceu na semana passada, há muito a ser feito para mostrar que o mundo árabe não se resume ao estado islâmico”.

Perdemos de forma dolorosamente precoce uma fotógrafa talentosa, uma activista empenhada, uma lutadora contra o preconceito e a intolerância. A mesma intolerância que a matou.


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Com curadoria de João Jarego.


 

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