UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS: André Kertész

Hoje um “clássico”. André Kertész (com o nome original de nascimento Kertész Andor), nasceu no ano de 1894 em Budapeste (Hungria), filho de uma família judia de classe média. O seu pai faleceu em 1908, vítima de tuberculose, tendo o seu tio paterno acabado por assumir as responsabilidades com o sustento da família do falecido irmão. Deve-se a isso que Andor (ainda era esse o seu nome) e os seus dois irmãos tenham prosseguido os estudos. Andor frequentou a Academia Comercial e, após a sua graduação, trabalhou como broker na bolsa de valores de Budapeste.

Nunca foi, porém, esse o seu elemento. Perseguia a fotografia de forma autodidata. Prestou serviço militar por um curto período na primeira Guerra Mundial, mas nem aí deixou de fotografar. Como contaria em entrevista (muito mais tarde) “So there I was, in the front line, lugging the plate negatives around in a metal case. The other lads said I was crazy. “Why?” I asked. “If I come out of this alive, then I’ll develop them; if I don’t, I won’t.” My kid brother had a great idea. Take 9 x 12 cm plates with you, he said, and cut them in four. (…) Then at night-time, somewhere in the village, or wherever we were, I would search out a dark place. I had a glass cutter and quartered the plates. It was a stroke of genius, because that way in one box of 9 x 12’s I had material not for 12 but for 48 photographs. Oh, how big was the camera? 4.5 x 6 cm.” … e nós queixamo-nos do peso da nossa reflex …

Em 1925, com 31 anos, deslocou-se para Paris, levando consigo as suas parcas poupanças. A mãe, que sempre quis manter a família unida, reconheceu (amargamente) que já não pertencia àquele lugar e encorajou-o a partir. Chegado a Paris, mudaria o seu nome para André e mantê-lo-ia para o resto da sua vida. Paris era então a capital artística mundial e André mergulhou nesse ambiente, convivendo com muitos artistas imigrantes e com os movimentos dadaísta e cubista.

Em 1936, com a escalada das tensões políticas e do anti-semitismo, emigra para os EUA.

Com uma carreira que cobre mais de 70 anos, André Kertész é um dos mais prolíficos e importantes fotógrafos de sempre. Não apenas foi um pioneiro da fotografia de rua, como influenciou uma geração inteira de fotógrafos – incluindo o mítico Henri Cartier-Bresson, que acerca dele diria “Todos devemos algo a Kertész”, acrescentando “O que quer que façamos, Kertész fez primeiro”. Brassai diria “André Kertész tem duas qualidades que são essenciais num grande fotógrafo: uma curiosidade insaciável acerca do mundo, das pessoas, e da vida e um sentido de forma preciso

Kertész foi um dos primeiros fotógrafos a encarar a fotografia como uma forma de expressão artística. Compunha extraordinariamente e com um maravilhoso sentido geométrico e de forma. “Pintava” verdadeiramente com a luz, jogando com o anglo de incidência da luz nos objectos, as suas sombras e o contraste entre luz e escuridão.

Inicialmente as pessoas acharam estranho (louco, até) que alguém fotografasse “as ruas”. O “ordinário”, o comum. O mundano. E, para Kertész, nada era demasiadamente comum para ser fotografado. Mostrou como a fotografia pode transformar o ordinário em extraordinário.

Sentimento. Kertész disse: “Ver não basta, tens que sentir o que fotografas”. Uma grande fotografia é uma fotografia que persiste na nossa memória e essas são as que nos tocam a um nível emocional. Atingem-nos. Visceralmente.

A técnica não é importante. A técnica está no sangue. O que acontece e o que se sente é mais importante que a “boa luz””. Kertész tem uma visão (que partilho): as imagens não têm que ser tecnicamente perfeitas. Perfeição técnica sem expressão apenas cria imagens perfeitamente esquecíveis. “Se queres escrever, tens que aprender o alfabeto. Escreves e escreves e no fim dominas o alfabeto perfeitamente. Mas não é o alfabeto que é importante. O importante é o que escreves e o que expressas. Com a fotografia é o mesmo. As fotografias podem ser tecnicamente perfeitas, ou mesmo belas, mas não terem expressão”.

Nunca parou. Já com 90 anos, Kertész criou um novo portfolio que partilhou com a fotógrafa Susan May Tell. Quando esta lhe perguntou o que movie, ele respondeu “I am still hungry.”


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Com curadoria de João Jarego.


 

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