UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS: Andrea Modica

A escolha do objecto fotográfico pode ser uma resposta a um momento fortuito. Inesperado. Há, contudo, momentos (veja-se Darcy Padilla com a série “Family Love” ou Mário Cruz com a série “Recent Blindness”) que originam projectos de longa duração. Podem, literalmente, abarcar uma vida. Por muito forte que seja o apelo do imediatismo das imagens que cristalizam aquilo a que Henri Cartier-Bresson apelidou de ”momento decisivo”, cada vez me sinto mais tocado pelos “corredores de fundo” da fotografia. Em 1986, a fotógrafa Andrea Modica conduzia através de uma zona rural do estado de Nova Iorque (em Treadwell) quando viu uma família sob o alpendre de uma quinta. Embora ela estivesse habituada a famílias numerosas (cresceu entre famílias de ascendência Italiana em Brooklyn, onde nasceu em 1960), nunca tinha visto uma família como esta. Encostou o carro. E perguntou se podia tirar uma fotografia.

Esta casualidade esteve na origem de uma narrativa fotográfica absolutamente notável. Entre os 14 filhos da família (cujo apelido nunca revelou), Modica sentiu-se particularmente atraída por Barbara. Fotografou-a durante os 15 anos seguintes e a relação terminaria apenas com a morte prematura de Barbara. Tinha 22 anos e foi vítima de complicações decorrentes da Diabetes que desenvolveu precocemente.

Esta série, designada “Treadwell”, na qual Modica é aceite e integrada na intimidade da família, capta o crescimento de Barbara desde a sua infância até ao limiar da sua morte. Morte que sucede a sua degradação física precoce. Dessa degradação, o testemunho fotográfico que nos fica não é o de uma exploração “voyeur”. Gratuita. É uma procura terna e generosa de uma essência que transcenda a dureza prosaica de um corpo progressivamente devastado.

Diz Modica: “I never imagined that Barbara would be my muse, but even in the earliest photos, there are qualities of her image that I was still seeking to capture at the end.

Quando mostrou as primeiras fotografias à família, encorajaram-na a regressar. Fê-lo. Repetidamente. “I thought she was beautiful. She was wise, she took pleasure in small things and people loved her. I realize only now that Barbara resembled my great aunt, who helped raise me. We developed a life together outside the pictures.”

Nos primeiros 10 anos, Modica exibiu muito poucas imagens de Treadwell. As galerias estavam mais interessadas noutros dos seus trabalhos. A primeira exposição temática dedicada a esta série surgiu em 1996. Maria Morris Hambourg, que assumia a curadoria da secção de fotografia do Metropolitan Museum of Art, escreveria a propósito deste Trabalho: “Modica’s art is about important and solemn events — those internal, molding moments we are mostly powerless to hold or articulate.

Para Modica, a relação que se construiu continha elementos estéticos e afectivos. Há uma sensação de intimidade e cumplicidade em muitas das imagens, mas que está ausente das imagens mais tardias: “Toward the end, things changed. There were days when we didn’t do anything except be together, when all she could do was cry.

Andrea Modica tem uma obra vasta. “Treadwell” foi a série que escolhi para falar de Modica. Ou, provavelmente, será ainda mais verdade o oposto: foi “Treadwell” que me levou a escrever sobre Modica. Notável é também o seu (mais recente) trabalho “As We Wait”, com a curadoria de Larry Fink, e que reúne um conjunto de imagens inéditas e que têm como fio condutor a tensão entre a solidão e a noção de que nada existe isoladamente.

Todas as imagens pertencem à série “Treadwell”.


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Com curadoria de João Jarego.


 

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Submissões abertas para a TEMA n. 5

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Enquanto a Revista TEMA n.4 chega às livrarias (mais novidades em breve) já estamos a pensar no próximo número. Até final de Abril é tempo de submeter os projectos em que acreditam, sob o tema “O Outro Lado”.

http://www.mef.pt/mef/tema-mag-submissoes-abertas/


POSTO DE TRABALHO – Valter Vinagre é o convidado da quinta sessão do Movimento e Imagem

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© Valter Vinagre

Valter Vinagre é o fotógrafo em foco na quinta sessão do ciclo “Movimento e Imagem”.

A convite do Movimento de Expressão Fotográfica, o fotógrafo vai explorar o seu projecto “Posto de Trabalho”, exposto em 2015 na Fundação EDP, numa conversa com o público, hoje, 1 de Março na Livraria Ler Devagar, na LxFactory, em Lisboa.

O ciclo “Movimento e Imagem” apresenta eventos quinzenais com convidados do campo da Fotografia e do desenvolvimento artístico sobre Imagem. Quinzenalmente, na primeira e terceira semana de cada mês, as tertúlias são abertas ao público em geral, com temas tão diversos como o Documentalismo, Fotografia e Integração Social, Curadoria, ou Identidade e Memória.