UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS: Daido Moriyama

Daido Moriyama nasceu em Osaka, Japão, no ano de 1938. É o terceiro dos fotógrafos da “geração perdida” de japoneses que escolho para esta rubrica. Foram, todos eles, nascidos antes do início da segunda grande guerra e que cresceram numa nação humilhada, derrotada e devastada.

Em 1961, Moriyama deslocou-se para Tóquio onde viria a ser assistente de Eikoh Hosoe (outro imenso fotógrafo). É um dos representantes mais emblemáticos do estilo “are-bure-boke” que busca intencionalmente a “imperfeição” e se caracteriza pelo grão, arrastamento e desfoque da imagem.

Fiel ao seu registo, o equipamento não tem para Moriyama a importância que muitos fotógrafos lhe atribuem. Araki, um dos mais famosos (infames?) fotógrafos japoneses, refere-se, no documentário datado de 2001, “Near Equal”, à forma como Moriyama “escravizava” a câmara (e não o contrário):

The photographer had been a slave of the camera for a long time. Good camera, good lens, Leica, etc. These were the masters of a photographer. But in a way, Daido Moriyama is a photographer who started to make the camera his own slave. Photography is not about the camera (…) Of course we need the camera. If you want to write a romantic love letter, we need some tool to write it with. But anything– a pencil or a ball pen is fine. It is like this in photography, and he is a pioneer for that.”

Moriyama utilizou câmaras Ricoh compactas durante a maioria da sua carreira. Fotografou principalmente a preto e branco e apenas começou a utilizar câmaras digitais recentemente.

A utilização de compactas liberta-o da preocupação de regular os settings da câmara. Utiliza-a, assumidamente, como “point-and-shoot” o que o deixa livre para se concentrar no que se passa à sua volta e não com a câmara, que resume a um papel meramente funcional. Acresce, segundo o próprio, o facto de ser muito mais discreta, silenciosa e menos “ameaçadora” que uma reflex.

Como alguém disse acerca de Moriyama, “I think he basically never bought his own camera. He basically borrowed a camera from someone. And it somehow becomes his own camera, or he got one from someone.” Na versão dele, “I got it as a gift, but when I used it, it was unexpectedly good. Any camera is fine. It is only the means of taking a photo.”

Eis um dos fotógrafos mais marcantes das últimas décadas e que se limitou a utilizar a primeira câmara que teve a oportunidade de por as mãos em cima.

E a sua persistência. O desejo de fotografar que continua vivo, como o expressa nesta entrevista em 2012 (tinha, na altura, 73 anos):

My friends or critics are often surprised and ask me why I never got bored walking around for over 50 years. But I never get bored. I often hear it is said that people, even photographers, do their best work when they are in their 20’s and 30’s. I’m 73 now. But I could never see the city with an old man’s eyes, or as if I understood everything.

Everyone has desires. The quality and the volume of those desires change with age. But that desire is always serious and real. Photography is an expression of those desires. So that way of thinking or speaking is nonsense to me. Completely meaningless. That’s how it is.”

E como é que ele vê o mundo? “I have always felt that the world is an erotic place. As I walk through it my senses are reaching out. And I am drawn to all sorts of things. For me cities are enormous bodies of people’s desires. And as I search for my own desires within them, I slice into time, seeing the moment. That’s the kind of camera work I like.”

E sobre as possibilidades da fotografia de rua, “Every city, no matter how it looks is a work of art. Fifty years have lapsed and with the thousands of photographs I have taken, I still find photography amazing. There are still millions of things and people that are worthy to be shot.

Ouvindo o “idoso” Moriyama, ressoam as palavras de Steve Jobs: “Stay hungry, stay foolish“.

Apetece-me ainda citar Moriyama quanto à cor versus preto e branco:

The reason why I think black and white photography is erotic is completely due to my body’s instinctive response. Monochrome has stronger elements of abstraction or symbolism. This is perhaps an element of taking you to another place. Black and white has that physical effect on me. That’s just the way I respond to things.”

De facto, percepcionando nós o mundo a cores, o preto e branco estabelece uma ruptura com a visão mais “literal” da cor. Facilmente temos uma linguagem mais simbólica. Abstracta.

E continua: “One distinction I can make—I’ve written about this in my essays: black-and-white photography has an erotic edge for me, in a broad sense. Color doesn’t have that same erotic charge. It doesn’t have so much to do with what is being photographed; in any black-and-white image there is some variety of eroticism. If I am out wandering and I see photographs hung on the walls of a restaurant, say, if they are black and white, I get a rush! It’s really a visceral response. I haven’t yet seen a color photograph that has given me shivers. That is the difference between the two.”

Porém, agora que fotografa digitalmente, tem vindo a descobrir as possibilidades que se abrem com a cor: “My interest in color is increasing. Sometimes when I see one of my black-and-white photographs, I think to myself: “That’s a Daido Moriyama image.” Whereas color work seems wholly different to me—still, there is something good about it. So what interests me is seeing my own work differently: the new, vague feeling of accepting the color work as my own. That is where I am now. At that vague, flickering stage.”

Daido Moriyama. Com ele pensámos a irrelevância (?) do equipamento, a importância de manter vida a curiosidade e a capacidade de nos deslumbrarmos e ainda a dicotomia cor/preto e branco. Já não é pouco …


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Com curadoria de João Jarego.


 

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