UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS: Fatemeh Behboudi

Fatemeh Behboudi nasceu em Teerão, Irão. Corria o ano de 1985 e o conflito sangrento com o Iraque (1980-1988) estava ao rubro. Fatemeh iniciou a sua relação com a fotografia em 2005. Fê-lo pela mão do seu pai, que estudou fotografia. Pegou numa câmara e inscreveu-se no Centro de Artes Jahad Daneshgahi (em Teerão). Aí estudou durante dois anos. Neste período descobriu a paixão pela fotografia e usou-a para retratar as feridas abertas à época do seu nascimento. Feridas que ainda hoje sangram.

“Mothers of Patience” é um trabalho tão extraordinário como dilacerante. Na guerra com o Iraque terão perdido a vida cerca de 200.000 soldados Iranianos. À data do final do conflito, 10.000 soldados estavam desaparecidos. Fatemeh, enquanto cresceu, acompanhou frequentemente a família nos funerais públicos dos soldados cujos corpos foram regressando ao país. Esta realidade marcou-a e esteve na génese deste trabalho. Nesses funerais, as multidões e os familiares eram dominados pela tristeza e pela raiva. Mas, às vezes, por uma réstia de esperança. Ela reparou num conjunto de mulheres chorosas que encontrava recorrentemente nestas ocasiões. Foi-se aproximando e acabaria por estabelecer uma relação com elas. Eram mães que ainda alimentavam a esperança de encontrar os filhos que nunca regressaram a casa. E são cerca de 5.000 os soldados ainda desaparecidos. “Mothers of Patience” retrata a vida das mães desses soldados. Mães que esperam. Nalguns casos, há 30 anos.

São mães que, maioritariamente, têm mais de 70 anos. Muitas delas doentes e debilitadas. O tempo que passou a deter-se sobre estas imagens e, confessa, as lágrimas que derramou, fizeram-na pensar na universalidade do fenómeno. De todas as famílias desfeitas pela Guerra e no sofrimento das mães. E de como tem sido assim, em toda a parte e ao longo da história.

Na primeira das imagens da selecção apresentada, a mulher representada é Anbar Jaberi, uma das mães fotografadas para este trabalho. Está junto a uma porta por onde entra um feixe de luz que a ilumina. Ela crê que, deixando a porta aberta, alguém aparecerá, um dia, com notícias do seu filho, Nematollah. Estava, à data da fotografia, desaparecido há 23 anos. Fatemeh refere que este comportamento não é incomum e encontra o mesmo tipo de esperança em todas estas mães. Abrem repetidamente a porta e sentam-se junto a ela.

Fatemeh ultrapassou o maniqueísmo inicial quanto aos lados envolvidos na Guerra e tem a intenção de alargar o seu trabalho a algo que seria, até recentemente, impensável: fotografar as mães dos soldados iraquianos que sofreram o mesmo destino. “Uma mãe é uma mãe”.

Passaram-se tantos anos em que apenas conseguia chorar quando se sentia angustiada. Hoje, devido ao choro repetido, já não consegue ver …

Passaram-se tantos anos em que tem escondido a sua dor atrás de um sorriso, de modo que ninguém perceba a sua aflição e o amor que esconde no seu coração impaciente…

Passaram-se tantos anos em que tem vivido em silêncio para os outros… Mas ninguém sabe que os seus soluços obstruíram a sua garganta e já não é capaz sequer de sussurrar uma canção de embalar …

É uma mãe. Uma mãe que todos os dias espera por uma chamada ou um toque na campainha de alguém que, um dia, talvez possa trazer notícias do seu filho desaparecido

São estas as palavras da própria Fatemeh (numa tradução livre, a partir do inglês, de uma entrevista via tradutor). A linguagem fotográfica, essa, dispensa traduções.

 


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Com curadoria de João Jarego.


 

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