UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS: Bruce Gilden

If you can smell the street by looking at the photo, it’s a street photograph.”

Bruce Gilden nasceu no ano de 1946 em Brooklyn, Nova Iorque (Estados Unidos). É um dos mais notáveis e controversos (porque incompreendido?) fotógrafos de rua vivos.

O aspecto que mais me chama a atenção na fotografia dele é o modo como é fiel à sua própria natureza. É crua, directa e, como fotógrafo, nunca procurou ser outra coisa senão ele próprio. Vejamos o exemplo de Henri Cartier-Bresson: a sua fotografia foi (e continua a ser) o modelo ao qual muitos dos fotógrafos de rua aspiram. Cartier-Bresson era tímido. Introvertido. Um homem que fotografava, mas não gostava de ser fotografado. O modo como fotografava reflectia essa sua personalidade. Pretender fotografar como Cartier-Bresson (questões “artísticas” à parte) e não se ter um perfil pessoal semelhante é receita segura para um trabalho inconsistente.

Gilden surge-nos nos antípodas de Cartier-Bresson. Gilden é extrovertido, interage e comunica com os seus fotografados (contrariamente à discrição mais fugidia de um Bresson). Mas, se é verdade que interage, não “pede licença”, como num dos seus vídeos em que fotografa uma mulher (no Reino Unido) e esta se mostra visivelmente incomodada por ter sido fotografada. Gilden não desarma nem se retrai: explica-lhe que a fotografou porque a achou bela de uma forma muito única e especial.

A sua personalidade forte (e, podemos dizê-lo, agressiva) revela-se nas suas opções fotográficas: utiliza – tipicamente – uma lente de 28 mm (o que implica enorme proximidade do sujeito) e recorre ainda ao flash (que não é apenas uma forma de assustar o sujeito fotografado – é um recurso estilístico que contribui para a teatralidade das suas imagens). Sim: fotografar alguém a menos de um metro e com flash (!).

Sobre os fotografados: “I love the people I photograph. I mean, they’re my friends. I’ve never met most of them or I don’t know them at all, yet through my images I live with them. At the same time, they are symbols. The people in my pictures aren’t Mr. Jones or Mr. Smith or whatever; they’re someone that crossed my path or I’ve crossed their path, and through the medium of photography I’ve been able to make a good picture of that encounter. They have a life of their own, but they are also are symbols. I would say that I respect the viewer, but I don’t want to tell him everything. Hopefully, there’s an element of mystery involved. I like him to look at a picture and say “Well, that that reminds me of someone,” and make up a little story in his head, make him smile, brighten up his day. I think this is what I’m trying to achieve with my photographs.”

Um aspecto menos óbvio da fotografia de Gilden é a sua dimensão humanista. Sim, não respeita distâncias de conforto, mas é muito mais que a captação aleatória de imagens de estranhos. A sua série “Haiti”, dedicada ao país homónimo e foi construída ao longo de 19 visitas ocorridas entre 1984 e 1995. Nesse período foi conhecendo as pessoas e ganhando a sua confiança. As imagens são, predominantemente, negras e caóticas. Tensas. Outras mais tranquilas. Em ambos os casos, a composição constrói-se sempre a partir do indivíduo e das suas emoções, retratadas com a mesma proximidade com que explora as ruas de Nova Iorque.

Outro aspecto inconvencional (e que eu aprecio imenso) na fotografia de Gilden é a sua composição pouco ortodoxa. Desde logo pela distância focal que utiliza mas, sobretudo, pelos ângulos escolhidos, e pela truncagem dos sujeitos.

Por último, quero realçar que as ruas de Nova Iorque têm sido o seu habitat fotográfico durante décadas. Fotografa nos mesmos locais. Como sempre, na fotografia, o desafio é o de encontrar um novo olhar. Gilden fá-lo há mais de 40 anos nas mesmas ruas. Não ter tempo ou dinheiro para viajar não é, pois, um pretexto válido para não se fotografar.

 


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Com curadoria de João Jarego.


 

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