UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS: Mário Cruz

Mário Cruz é o fotógrafo português do momento. E está longe de ser um estreante no MEF. Em julho de 2015 dediquei-lhe uma das edições desta rubrica; em setembro viria a entrevistá-lo para a revista Tema (em cuja sessão de lançamento marcou presença) e ontem esteve no MEF para falar do seu último projecto: “Talibes, modern day slaves”.

É a primeira vez que esta rubrica repete um fotógrafo. Há bons motivos para a não observância, esta semana, da regra implícita da não repetição.

Este seu último projecto teve um impacto tremendo, como qualquer pesquisa num motor de busca rapidamente permitirá concluir. Distinguido pela World Press Photo, publicado na Newsweek ou coberto pela CNN. E a lista poderia prosseguir. Este ensaio escrito permite complementar a informação de outras fontes …

Assim, não é objectivo desta rubrica apresentar o fotógrafo (tal seria uma simples “revisão da matéria dada”).

O Mário está determinado a publicar este seu trabalho em livro. Para tal está em curso uma campanha de crowdfunding para angariação de recursos que permitam a sua edição. Estou certo que irá consegui-lo e quero desafiar todos quantos leiam estas linhas a contribuir para tal. Sim: é este o propósito da rubrica de hoje. E se o não puderem fazer financeiramente, que passem a palavra.

Será assim tão importante a edição em livro? É. E permitam-me que tente explicar o porquê.

Mas, antes disso, um pouco de contexto. Mário teve o primeiro contacto com esta realidade em julho de 2009 quando fazia a cobertura das eleições presidenciais na Guine-Bissau (na sequência do assassinato de Nino Vieira). Ouviu histórias de crianças desaparecidas (raptadas) para mendigar para proveito de falsos professores de falsas escolas corânicas. Histórias que passam de boca em boca, mas sem que houvesse evidência fotográfica que as suportassem. E não as esqueceu. A preparação da viagem começou no início de 2015, envolvendo contactos com a Human Rights Watch e o Ministério da Justiça do Senegal.

A realização do trabalho foi possível graças a 2 meses de licença sem vencimento para mergulhar no mundo abjecto dos Talibes (termo árabe para discípulo). Acompanhado do seu fixer penetrou nas Daaras (“escolas”), com o pretexto de documentar a degradação destas estruturas e, assim, obter financiamento junto da ONG à qual o fixer, efectivamente pertencia. Com persistência e risco (não era suposto fotografar talibés) conseguiu documentar abusos inaceitáveis como o chicoteamento de uma criança ou o aprisionamento de outra com correntes num dos pés (prática que era relatada e evidenciada pelas escoriações nas crianças, mas nunca antes fotografada).

Depois o processo da publicação: após uma recepção entusiástica do seu trabalho no Visa pour l’image, a contratualização da publicação com a Time, mas sucessivamente adiada. Setembro tornou-se Outubro. E por aí adiante. Em Fevereiro, veio o “basta” e foi publicada na Newsweek online (a edição em papel ainda está por sair … a cada semana parece haver sempre uma notícia que bate mediaticamente a da exploração sub-humana de 50.000 crianças).

Porquê o livro, então? A sua publicação não é um acto de vaidade (como quem tenha estado na presença do Mário saberá). Tampouco se destina apenas a preencher as estantes dos seus apoiantes no kickstarter. Em sociedades como o Senegal, a existência e circulação do documento terá uma importância determinante na potenciação da sua percepção. Exemplares irão para bibliotecas locais, circularão através de organizações governamentais (para as quais será cada vez mais incómodo ignorar esta realidade) e não-governamentais.

O que o projecto nos pede é menos que um café por cada um dos 50.000 talibes cujo dia começa às 5 da manhã, quando se levantam para fazer algumas leituras antes de saírem para mendigar. O que os espera após um mínimo de 8 horas de mendigagem (ou trabalho escravo) são maus tratos sob a forma de espancamentos e violações que não têm hora para terminar.

Vamos ajudá-los. É um contributo para tornar um pedaço do mundo um bocado mais decente. Mas um contributo.


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Com curadoria de João Jarego.


 

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