UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS – Lee Friedlander

“It fascinates me that there is a variety of feeling about what I do. I’m not a premeditative photographer. I see a picture and I make it. If I had a chance, I’d be out shooting all the time. You don’t have to go looking for pictures. The material is generous. You go out and the pictures are staring at you.

Lee Friedlander nasceu em Aberdeen, no estado de Washington, EUA. Corria o ano de 1934. Sempre achei que a “polinização cruzada” entre diferentes disciplinas produz resultados interessantes do ponto de vista criativo. Com Friedlander a fotografia e a sua paixão de sempre pelo Jazz andaram a par (embora ele esclareça, para que não restem dúvidas acerca de qual a primeira, que o Jazz é a sua segunda grande paixão).

E como é que estas paixões se cruzam? Friedlander tinha 5 anos quando entrou no estúdio de fotografia local para levantar retratos do seu pai. Sem saber bem como, deu por si na câmara escura e ficou siderado com o processo de “aparição” das imagens em papel.

Mais tarde, quando frequentava o liceu, trabalhou numa loja de fotografia como assistente do fotógrafo local. Stan Spiegel – um DJ e fotógrafo freelancer – foi também alguém de quem recebeu umas “dicas” fotográficas. Com 16 anos conseguiu adquirir o seu próprio ampliador e sonhar em estabelecer-se como freelancer. O tal Stan Spiegel deu um “empurrão” ao passar a Friedlander alguns dos pedidos menos ortodoxos que recebia. Ambos gostavam de Jazz e podemos adivinhar que não terão sido raras as conversas entre Friedlander e o seu “mentor” sobre as suas duas paixões. Friedlander passou a ser presença frequente nas lojas de discos locais e sintonizava os programas de Jazz que passavam na rádio.

Sobre a sua constant procura da música com o seu amigo, “Anytime we could smell music, we were there. I had a friend who knew about an afterhours club, where the musicians would go and jam after they’d played. The place didn’t have a liquor license; I guess that’s how we got in. once there was a black group with an albino bass player, called the Cecil Young Quartet. It was quite modern for those times, in fact, very modern.”

E recorda o impacto profundo da primeira vez que ouviu Charlie Parker e Nat King Cole em Seattle: “I was dumbfounded. I somehow knew exactly where he was coming from. He made me understand that anything was possible.”

Quando se estabeleceu como fotógrafo a tempo inteiro, viria a começar por fotografar músicos de Jazz e a serem da sua autoria muitas capas de discos da Atlantic records.

Para os fotografar, deslocava-se como frequência à sua própria casa para assegurar que se sentiam tão confortáveis quanto possível. Interessava-lhe captar a essência dos músicos e não apenas a acção das suas actuações.

Numa sessão com o Miles Davis, o “master of cool” estava, paradoxalmente, bastante nervoso. Interrogado por Friedlander acerca da origem dessa tensão, Miles confessou-lhe que estava ansioso com o aspecto com que viria a surgir nessas imagens. Hoje, com o imediatismo da fotografia no domínio digital, a questão nem se colocaria … mas os tempos eram outros e Friedlander teve a ideia de ir buscar um espelho para que Miles se pudesse observar. Funcionou! Isto é um bom exemplo do que deve ser a procura na prática do retrato. Evitar as poses fabricadas, baixar as defesas do fotografado, capta-lo como é. Para lá da superfície. Como disse

Joel Dorn, produtor da Atlantic: “Lee’s pictures show who these people were when they weren’t being who they were.

Friedlander não se ficou pelo Jazz. Tem uma carreira longa (6 décadas) e eclética. Como curiosidade, são da sua autoria os nus da Madonna (a preto e branco e captados no final dos anos 70 quando ela ainda era uma desconhecida aspirante a artista.

Mas deixo-vos com mais uma deliciosa “subversão” de Friedlander: a quebra do tabu de que a sombra ou reflexo do fotógrafo deverá estar sempre ausente da fotografia.

Friedlander ignorou-o. Mais, publicou um livro dedicado ao tema: “Lee Friedlander: Self Portraits”.

Sobre esta obra, Peter Galassi comentou (de forma que me parece absolutamente acertada) o seguinte:

Friedlander, though, in a manner that was fast becoming a hallmark of his work, went after the idea like a dog for a bone, encouraging his surrogate self to behave like a character with a mindlessness of his own. His shadow became the protagonist of mini dramas of the street; or sometimes it was just the dopey bystander, or the nosy jerk who can’t resist poking his head into things.

Friedlander’s reflection, too, offered a wealth of opportunities for comic self-deprecation. Many of these picture are like in-jokes at a photographer’s convention, send-ups of the trials and tribulations of the trade.”


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Curadoria de João Jarego.


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