Um fotógrafo às terças – Miguel Rio Branco

A fotografia humanitária que vai mudar o mundo é um blefe. Ela funciona por um tempo, e não vai atingir muitas pessoas. Além disso, a questão da imagem está absolutamente deturpada. Vivemos em um mundo em que tudo é marketing

Miguel Rio Branco, nasceu em 1946 nas Ilhas Canárias, filho de diplomatas brasileiros. Como tal, teve uma infância nómada, tendo passado por países como os Estados Unidos, Argentina, Suíça ou … Portugal. A diversidade de estímulos a que foi exposto terão contribuído para o seu ecletismo: Miguel é, além de fotógrafo, pintor e realizador. Aliás, as primeiras exposições públicas que realizou foram das suas pinturas – em 1964 (contava apenas 18 anos).

A fotografia surgem 1970. Nesse ano regressa a Nova Iorque (onde já tinha vivido entre 1964 e 1967) e ingressa na School of Visual Arts onde permaneceu apenas um mês (!) antes de ter decidido iniciar as suas explorações por conta própria da cidade com fotografia de rua (começando pela zona onde vivia e com maior ênfase nos bairros de Bowery e East Village).

A exploração fotográfica de Nova Iorque ressoa internamente e fá-lo descobrir pontos de contacto com a sua pintura e com artistas que admira como Goya: “I went into the decaying parts of New York, something I was already depicting in painting, but with my photography I explored the people there, not just the buildings. Although my photographs were black and white, the paintings I did during my early years in New York, employed color in a way that would come into my photographic work later on. I’m not a colorist like Matisse; I’m much darker like Goya – those colors were the colors of those old buildings in New York at that time.”

Em 1980, um fogo nos seus arquivos, em São Paulo, destruiu quase todo este legado. Salvaram-se os negativos que estavam com ele. Mas o melhor ainda estava para vir …

Rio Branco trabalhava como fotógrafo freelancer e director de fotografia de filmes quando se iniciou na fotografia documental e o seu trabalho rapidamente se destacou pelo seu carácter dramático. Fascinado pelos contrastes fortes e a saturação das cores tropicais, fez do Brasil o principal palco das suas explorações fotográficas. A ruina, a marginalidade, a pobreza, a exclusão marcam a sua obra. Em 1985 publicou o trabalho Dulce Sudor Amargo. Neste livro capta as diferentes faces da cidade de Salvador da Baía, desde o seu lado mais sensual e luminoso ao mundo de prostituição e mendicidade. Luz e sombra. Vida e morte. Sempre os contrastes – literal e metaforicamente.

Com um outro livro – Nakta – distancia-se do registo documental para seguir uma via mais experimentalista. Instalações, formatos híbridos nos quais vídeo e fotografia coexistem (bem como imagens extraídas de vídeo), têm vindo a marcar o seu trabalho. E a fotografia surge cada vez menos como imagem isolada: Rio Branco justapõe imagens. Em dípticos, trípticos e polípticos. Estas composições visuais encontram-se entre as mais fascinantes da fotografia do nosso tempo.

Impossível de ser etiquetado e colocado numa gaveta, o universo pictórico de Rio Branco é de uma riqueza inesgotável. Provavelmente o mais extraordinário fotógrafo brasileiro vivo.

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Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. A curadoria foi de João Jarego.


Amigo João.

Agradecemos a tua partilha e participação na rubrica “Um fotógrafo às terças”. A tua dedicação foi de grande importância para a divulgação da fotografia e contribuiu para o conhecimento fotográfico de quem acompanhou semanalmente os “teus fotógrafos”. A tua contribuição superou a nossa expectativa, muito obrigado.

Grande Abraço,

Luís Rocha

#umfotografoastercas


 

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