Exposição fotográfica colectiva NARRATIVAS 

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© Nuno Correia

De 1 a 21 de Dezembro de 2016, Rua Arroios, 100, Lisboa.

Autores: Ana Rodolfo, Catarina C. Sampaio, Nica Paixão, Nuno Correia, Pedro Martins e Rui Pedro Esteves.


Esta exposição nasce da vontade de dar continuidade a um Workshop lançado pelo Movimento de Expressão Fotográfica (MEF) com a duração de 4 meses, que tinha como objectivo a utilização de película fotográfica e a prática laboratorial em preto e branco apoiada numa interpretação e reflexão pessoal sobre a obra “Extraños” do fotógrafo Juan Manuel Castro Prieto (1958).

Tomando esta obra como ponto de partida, pretendia-se não só proporcionar conhecimentos de técnicas de impressão em laboratório mas, essencialmente, pensar a imagem fotográfica como forma de expressão pessoal no contexto de um trabalho autoral em que a partilha, a crítica, e a edição de imagem foram partes integrantes.

Com a extensão do trabalho destes seis autores agora em forma exposição, coloca-se em contexto as diferentes narrativas pessoais no cruzamento com o trabalho Castro Prieto, porém de uma forma autónoma. Pretende-se assim fechar o ciclo que começou com uma ideia comum mas que o percurso, a experiência e a personalidade de cada um moldou e assimilou à sua maneira.

Cada um destes projectos tem uma personalidade própria, são processos de procura de significação através de fragmentos dispersos; são narrativas às quais faltam letras, frases, páginas, é, em cada caso, uma procura pessoal. É um trabalho quase impossível em que o analisado se analisa na procura de si próprio. Daí os paradoxos, a falta de respostas, os becos sem saída, as ambivalências, as hesitações, a necessária catarse que tanto se socorre da fisicalidade da imagem que se dispersa em trípticos como se condensa na intensidade fracturante e ruidosa da imagem única. São trabalhos densos, codificados, que não se revelam de uma maneira simplista ao exercício do olhar.

Ana Rodolfo ao reflectir sobre a memória do outro como memória nossa, lança pelo menos duas questões: a das categorias ou hierarquização da temporalidade (a memória da memória), e o da “estranheza” de um corpo (de memória) que apropriamos e se apropria de nós. É um trabalho sobre o diferido do outro, em que se poderia dizer que há uma espécie de sabotagem do real por interposta pessoa, pela sua memória, que nos persegue e insinua.

Na narrativa de Catarina C. Sampaio há muitas pausas, sublinhados, palavras soltas, enigmas por resolver, matérias do quotidiano que não se resolvem na sua aparência. É uma tautologia que se serve das imagens como suporte de uma forma aparentemente ingénua, mas decerto enganadora. A simplicidade é complexa e cada imagem é um capítulo, é um universo de contenção.

Já os trípticos de Nica Paixão transbordam para fora da forma do livro de uma forma necessária, quase visceral, numa dimensão performativa que obriga a um gesto de desdobrar e a um dobrar, numa metáfora de revelar e ocultar, de habitar e desabitar, de entrar e de sair… do livro, da vida. E em cada tríptico uma personagem e uma mediação, um sentir-se dentro e fora…equívocos, vestígios, marcas, fissuras, contaminações, memórias elas próprias suportadas na insuficiência dos fragmentos de textos. Labirintos de realidades ficcionadas ou de ficções tornadas reais pela urgência de uma outra temporalidade, de uma outra geografia de afectos.

De outro modo se posiciona o universo de Nuno Correia, que está contido entre a singularidade do mergulho no espelho, na imagem inicial, e a ocultação da máscara, na imagem final. Estas são as duas premissas que autorizam uma lógica fora dos contextos do pragmatismo do documento, da necessidade da representação do real, ou da consistência de um projecto minuciosamente planeado. É mais, talvez, uma espécie de exercício à mão-livre, sem régua nem esquadro. Uma procura de coordenadas visuais que flutua entre a memória e a necessidade de reinventar essa própria memória. Um discurso plural que sugere mais do que afirma, que provoca mais do que certifica, que inquieta mais do que significa.

Mas se Nuno Correia insinua e aponta, Pedro Martins, com “Sapatas”, desce em definitivo às fundações, às profundezas, dando a visibilidade possível aos domínios mais obscuros, aos medos e demónios que nos habitam. E o que pensávamos ser-nos “estranho”, o que julgávamos enterrado, o que dávamos por resolvido, vem à superfície com uma brutalidade aterradora… e mesmo assim parece-nos um sonho algo bizarro, grotesco, do qual pretendemos acordar. É o momento em que o sonho é mais real do que a realidade.

Por sua vez Rui Pedro Esteves propõe-nos uma viagem pessoal através do outro, em que cada díptico, ou tríptico, é uma encenação/projecção de um capítulo da sua vida. Memória e ficção, unem-se num “story-telling” necessariamente fragmentado pela condição da fotografia que enuncia apenas suspeitas. Porém, é esta lógica do fragmento que sugere ao espectador uma arqueologia dos seus interstícios, na tentativa da re-construção de uma narrativa que pretende com alguma coerência.

José Oliveira


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