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UM FOTÓGRAFO ÀS TERÇAS: Mario Giacomelli

Mario Giacomelli nasceu em Senigallia, Itália, no ano de 1925. Nascido numa zona empobrecida, e com o seu destino agravado pela morte do pai (quando Giacomelli contava apenas 9 anos), abandona a escola aos 13 anos para trabalhar na tipografia da sua cidade natal (“Tipografia Marchigiana”). Passava os fins-de-semana a pintar e escrever poesia. Finda a segunda guerra mundial, voltou-se para a fotografia. Na fotografia, à qual chegou graças aos filmes de tempos de realizadores como Fellini, foi um autodidata. Por mero acaso, o fotógrafo Giuseppe Cavalli veio viver para Senigallia e chegou animado da intenção de criar um clube que promovesse a fotografia como forma de arte. Em 1953 foi criado o clube “Misa”, que tinha Cavalli como presidente e, como tesoureiro, Giacomelli. A sua primeira câmara foi adquirida no ano anterior (1952).

É notável que Giacomelli se tenha mantido toda a vida no negócio da tipografia e raramente se tivesse afastado da sua cidade natal. E é ainda mais surpreendente e extraordinário que fotografasse sem a regularidade e disciplina que normalmente encontramos nos grandes fotógrafos. Na verdade, chamavam-lhe “fotógrafo de domingo”.

Desde muito cedo que o uso que fez da câmara e da sala escura foi marcado por uma total falta de observância das “regras”, explorando livremente os efeitos visuais que conseguia produzir. Fê-lo de forma totalmente despreocupada com o realismo visual das suas criações. Utilizava filme fora do prazo. Sub-expunha violentamente. Desenhava livremente sobre os negativos. Uma completa falta de “boas maneiras”, fotograficamente falando. Mas foi da libertação dos cânones que emergiu o seu registo pessoal e profusamente expressivo.

Os títulos das suas fotografias e das séries em que trabalhou eram atribuídos depois do trabalho ter sido concluído e, frequentemente, derivadas da escrita de poetas como Jorge Luis Borges e Edgar Lee Masters. Os seus temas eram intemporais: juventude, velhice, trabalho e lazer, memória, desejo.

Durante quase 30 anos (entre 1954 e 1983), Giacomelli fotografou idosos num lar onde a sua mãe havia trabalhado. Por vezes a pele destes é-nos apresentada de forma quase translúcida, como se as suas “almas” a permeassem. Esta é, de todas quantas fotografou, a série que o próprio considerou como sendo a mais genuína e crua por mostrar o seu sentimento de “repulsa pelo preço que temos de pagar pela vida”. Entre 1985 e 1987, Giacomelli revisitou o tema para a série ”Ninna Nanna,” que significa canção de embalar. Os rostos e corpos enrugados e consumidos pela idade surgem como contraponto aos padrões de campos lavrados ou ressequidos e de fachadas de edifícios, também estas consumidas pelo tempo.

Uma outra série emblemática, esta mais abstrata e remetendo por vezes para um grafismo que evoca o de Aaron Siskind, apresenta-nos imagens de campos. Nalgumas das imagens, os campos foram lavrados por um trator após as colheitas (versão contrariada pela sua sobrinha, Simona Guerra), de modo a neles serem desenhados padrões que depois eram fotografados a partir de avião ou de um ponto mais elevado. Era como que um Deus ex machina que moldava a paisagem de acordo com a sua imaginação. “Talvez nunca tivesse fotografado paisagens,” disse Giacomelli. Concluindo: “simplesmente amei-as”.

Embora tivesse fotografado em locais como a Etiópia, documentado rituais budistas ou as peregrinações a Lourdes (em França), é como se toda a sua obra fosse uma reflexão em torno da ordem e desordem do mundo vistos a partir do micro-cosmos da pequena cidade italiana onde sempre viveu.

Fotógrafo nas horas vagas. Num meio periférico e do qual raramente saiu. A probabilidade de alguém nestas circunstâncias vir a ocupar um lugar de relevo na história da fotografia dir-se-ia negligenciável. E sê-la-á seguramente. Mas, graças a Giacomelli, sabemos que isso é possível.


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por  nome de autor. Com curadoria de João Jarego.