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SESSÃO V DO MOVIMENTO E IMAGEM

“Espera”, o filme decorria enquanto nos ajeitávamos nas cadeiras e aguardávamos o início da sessão. Imagens de estrada, como se esperássemos alguém… Tudo começou com uma inquietação, revela Valter Vinagre, a propósito do seu projecto fotográfico “Posto de trabalho” sobre a prostituição à beira da estrada. “O que se passa para lá? O que está para além da representação?“ Estas perguntas assolaram-no e levaram-no aos limites das vias. Valter Vinagre guiou-nos no seu processo enquanto os vários locais de trabalho foram enchendo a sala. Um projecto que finaliza em 2013 depois de muitos quilómetros percorridos. Mas a inquietude escolhe outro caminho. Esta permanece… num olhar permanentemente inquisitivo sobre a realidade.

A sessão decorreu na livraria Ler Devagar, em Lisboa, no dia 01/03/2016.

Texto de Cristina Cabrita e Fotografias de Luís Rocha

Movimento de Expressão Fotográfica - Produção

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POSTO DE TRABALHO – Valter Vinagre é o convidado da quinta sessão do Movimento e Imagem

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© Valter Vinagre

Valter Vinagre é o fotógrafo em foco na quinta sessão do ciclo “Movimento e Imagem”.

A convite do Movimento de Expressão Fotográfica, o fotógrafo vai explorar o seu projecto “Posto de Trabalho”, exposto em 2015 na Fundação EDP, numa conversa com o público, hoje, 1 de Março na Livraria Ler Devagar, na LxFactory, em Lisboa.

O ciclo “Movimento e Imagem” apresenta eventos quinzenais com convidados do campo da Fotografia e do desenvolvimento artístico sobre Imagem. Quinzenalmente, na primeira e terceira semana de cada mês, as tertúlias são abertas ao público em geral, com temas tão diversos como o Documentalismo, Fotografia e Integração Social, Curadoria, ou Identidade e Memória.


Valter Vinagre no Movimento e Imagem

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Na quinta sessão do ciclo Movimento e Imagem, promovido pelo Movimento de Expressão Fotográfica, teremos como convidado o fotógrafo Valter Vinagre, numa conversa em torno do projeto fotográfico “Posto de trabalho” que recentemente esteve em exposição na Fundação EDP. É no dia 1 de Março, a partir das 19h30h, na Ler Devagar (LxFactory, Lisboa).


Um Fotógrafo às Terças – Valter Vinagre

Valter Vinagre. Nasceu em Avelãs de Caminho, no concelho de Anadia, em 1954. Estudou fotografia no AR.CO – Centro de Arte e Comunicação Visual entre 1986 e 1989. O seu trabalho fotográfico começa em meados da década de 1980, na imprensa regional. Seguem-se jornais de distribuição nacional, como o Expresso e o Público.

Têm até ao dia 4 de Outubro a possibilidade de visitar a sua mais recente exposição, “Posto de Trabalho” na Fundação EDP. Na senda do seu registo habitual, as suas fotografias são mais perguntas que respostas. Notáveis pelo que mostram, mas também pelo que fica fora da imagem.

Comecemos pelo “Posto de Trabalho”. Esta série resulta de um trabalho fotográfico desenvolvido entre 2010 e 2013. Confrontados com as imagens a frio e sem qualquer contexto, estes espaços improvisados, confusos e lúgubres que o fotógrafo escolhe iluminar com uma luz incisiva, estas são-nos desconfortavelmente distópicas. As “construções” precárias (noutros casos nem construções são de todo) acolhem (expressão eufemística) a consumação do “acto” no mundo sombrio da prostituição de beira de estrada. Citando o próprio autor, “As fotografias que apresento nesta série – «Posto de trabalho» não mostram gente, mas é de gente que falam. Temos espaços e construções de aspecto efémero que abrigam e ocultam uma actividade laboral subterrânea. Através destas imagens procuro falar da prática de prostituição numa das suas vertentes – talvez a mais dura, perigosa e menos digna para as suas trabalhadoras e clientes. Falar da prostituição de berma de estrada implica reflectir na sua dualidade público/privado. É público, porque se anuncia/mostra na berma de estrada. É privado, porque as suas práticas se fazem longe de olhares indiscretos, no recato da floresta, no interior de abrigos improvisados.”

Sobre o que o terá levado até este projecto, “Penso muito no que me leva até certos trabalhos. E chego à conclusão que muitas coisas a que me dedico são autobiográficas. Algumas realidades fizeram parte da minha infância de tal maneira que em determinado momento tenho de parar e pensar sobre elas. Nasci numa terra que é atravessada pela Nacional 1. Era uma zona de muitos acidentes. A partir dessas memórias fiz o Para. Quando era pequeno, saía de casa, atravessava o quintal e a estrada e estava na escola. A estrada esteve sempre presente durante a minha infância e, quando olho para trás, noto que o meu trabalho está muito ligado a ela. São cenários de extrema violência. E esse é um dos temas que me interessa tratar – a questão da violência na sociedade contemporânea.” Violência. Sim, a violência de que Valter Vinagre fala é transversal à sua obra. Esta funciona, todavia, muito mais como um substrato para o seu trabalho sobre o qual uma narrativa sobre a violência se constrói. Ela – a violência – é sempre implícita e nunca explícita.

Animais de Estimação” tem como ponto de partida um desafio relacionado com o registo fotográfico da Biodiversidade em Portugal. Valter Vinagre subverte de forma inteligentemente provocadora esse ponto de partida e com esse trabalho pretende “(…)registar a teimosia humana, a necessidade que temos de tentar perpectuar memórias, neste caso memórias naturais em extinção.”. Mais do que isso, os animais embalsamados surgem em ambientes domésticos totalmente prosaicos, reforçando a antítese com o ideal de ambiente livre e selvagem que ressoa quando se invoca o termo “biodiversidade”. A cor e a dinâmica vibrante da vida solta de amarras é substituída por criaturas empalhadas, permanentemente imóveis e fixadas monocromaticamente e com a luz fria do flash. Novamente a distopia.

Olha”. Aqui Valter Vinagre volta o seu olhar para a violência doméstica, num trabalho que resulta de uma colaboração com a APAV. Como é habitual no seu trabalho, encontramos também aqui a recusa do óbvio. Do choque. Do fácil. Do espetáculo. Não há sangue, queimaduras, hematomas ou membros partidos. Há uma serenidade silenciosamente cúmplice com as vítimas da violência. Explorá-las de forma voyeur não seria o prolongamento da violência, agora travestida de boas intenções humanistas?

Termino renovando o desafio para que não percam a oportunidade de apreciar ao vivo e a cores o mais recente trabalho de Valter Vinagre. (Re)descobrirão um dos mais notáveis fotógrafos portugueses em actividade.

Site de Valter Vinagre.

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Todas as imagens de © Valter Vinagre


Os fotógrafos desta rubrica, estão disponíveis, após a sua publicação, em: Um fotógrafo às terças, com acesso ao arquivo por data de publicação e nome de autor.